Conversando com a Teoria

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Os jogos dos jogosusa-germany

A Copa de 2014 está divertida de assistir e cheia de zebras, mas nos deu uma oportunidade interessante de analisar um fenômeno das Relações Internacionais por causa do último jogo entre Portugal e EUA. O empate das equipes fez com que os EUA alcançassem a Alemanha em número de pontos, e como as equipes se enfrentam na última rodada, basta um empate entre as duas para que avancem à fase seguinte, deixando Portugal de fora mesmo que ganhe de goleada sua última partida.

A memória de resultados combinados em outros jogos da história (incluindo em copas do mundo) aterroriza os fãs do esporte, mas seria mesmo o caso? Ambos os times vão abrir mão da oportunidade de poder eliminar um adversário forte? Dá pra confiar no outro lado sem que alguém tente marcar um gol no final para azedar tudo?

Aqui entra a Teoria dos Jogos, de que já ouvimos falar algumas vezes no blog. Em algumas situações, atores racionais em uma situação de dependência mútua não podem ter certeza de que a cooperação vai acontecer, ou de que podem confiar na outra parte sem que haja alguma traição. No caso do jogo, temos uma situação parecida com o modelo de “assurance” (o tipo de jogo do qual saiu o famoso modelo do “stag hunt”), em que cada ator pode perseguir seu objetivo isoladamente ou cooperar para conseguir algo maior. Ênfase no “parecida” pois nesse caso se pressupõe uma cooperação, enquanto o jogo de futebol é claramente competitivo. Também se parece um pouco com o modelo do “dilema do prisioneiro”, mas sem a conotação negativa das resultados.

Claro que é uma visão bem simplificada, mas que exprime bem o dilema dos atores. Apesar de ir contra a moral, as regras e o espírito do jogo, as condições para que os atores cooperem (trapaceando) são ótimas nessa situação: é muito fácil forjar um empate. E mesmo assim não se pode garantir que isso vá acontecer – a própria condição de serem os atores “racionais” para que esse lógica de jogos funcione pode ser contestada de maneira bem clara quando pensamos em valores como honra e espírito esportivo. É hipotético, mas não consigo ver os norte-americanos aceitando tal coisa (para os alemães, infelizmente, há precedentes, e mesmo assim isso pode servir justamente de motivação para que NÃO cooperem).

Ora, a Copa do Mundo em si é um evento de Relações Internacionais dos mais significativos (32 seleções vistas por bilhões de pessoas mundo afora). Mas esse caso mostra algo que vai além do esporte. A chave disso tudo é o problema de não saber qual será a reação exata das outras partes. E essa lógica, que serve para um jogo de futebol, ajuda a explicar também, por exemplo, porque apesar das negociações de trégua e controle de fronteiras, Ucrânia e Rússia permanecem com tanques às portas uma da outra.


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