Os índios do século XXI

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Começa mais uma reunião da cúpula dos BRICs. Os presidentes de Brasil, Rússia, Índia e China reunem-se em Brasília objetivando … ? Não faz muito tempo, eu mesma defendia que as diferenças entre os quatro atores podiam ser obstáculos, mas não impediam o fortalecimento político do bloco, há muito apontado como a pujança economica global dos próximos anos.

Essa semana, o jornal britânico The Economist afirmou que os BRICs são incapazes de promover mudanças significativas. O Finantial Times já havia, em outra oportunidade, dito o mesmo (“Os BRICs são um acrônimo em busca de um propósito. Na época isso não me pareceu correto. O bloco apresentava primeiros passos em aproximações, formação de agenda comum.

Um ano depois (agora), a declaração conjunta não fugiu muito da anterior. Os governantes de Brasil, Rússia, Índia e China cobraram reformas imediatas no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, de modo a dar mais voz para as nações em desenvolvimento. É praticamente, como aliás em muitas outras conclusões diplomáticas, um ctrl c + ctrl v.

O Brasil tentou articular os demais países em favor de uma solução negociada no caso das sanções ao Irã. Em vão. Nada saiu sobre o assunto. Outro ponto discutido foi a nova relação de colonialismo que a China vem estabelecendo com os demais países, sobretudo na América Latina. Hoje, a China é a terceira maior parceira comercial do continente, com previsão para se tornar a segunda (destronando a UE) dentro de quatro anos. De um lado, uma China ávida por matéria-prima, energia e artigos agrícolas; do outro, uma América Latina que os tem em abundância. No entanto, a assimetria é clara: produtos de base X bens manufaturados. O petróleo representa 94% das vendas do Equador à China, e a soja e seus derivados correspondem a 80% das vendas da Argentina. A China é a maior parceira comercial do Brasil, mas minério de ferro, o petróleo e a soja correspondem a 73% do total exportado.

Os BRICs se colocam como os novos players, e mudança do cenário internacional é o mote do grupo. Como ser porta-voz de transformação se carece diálogo sobre assuntos primordiais? Liderança global com medo de tocar feridas? Pode haver ruptura sem iniciativa?

Os emergentes que me desculpem, mas articulação é fundamental. Todo o resto é garganta.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Organizações Internacionais


1 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

É realmente, o documento produzido pela última reunião dos BRICs pareceu mais uma carta de intenções do que o resultado de um diálogo coeso. Por outro lado, apesar das diferenças entre esses 4 países, reuniões como essas aos poucos vão direcionando para uma agenda comum, sendo que, em minha opinão, os resultados serão vistos mais daqui a alguns anos do que imediatamente. Mas como você mesma disse, se não houver um diálogo mais conciso entre esses Estados desde já, os possíveis avanços futuros podem ser minados.Parabéns pela análise.Abraços