Os humores do Egito

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A política é cheia de surpresas. Principalmente depois de algum tipo de grande transição ou mudança brusca. Os especialistas até tentam prever, por suas análises dos jogos de poder e dos interesses envolvidos. Mas sempre existe algum elemento surpresa que escapa a todos e dificulta previsões. O Egito é a prova viva disso. 

Se a história recente do país fosse gente, poderia ser um homem com transtornos de humor. Com picos de otimismo e pessimismo que, se deixarmos de acompanhar a fio o que se passa, podemos ficar ainda mais confusos. No ano passado, quando das primeiras movimentações na Praça Tahir, a surpresa. Ao passo que Mubarak resistia, a tristeza. No dia que renunciou, o otimismo. Após o anúncio de que o Conselho Superior das Forças Armadas, composto por muitos militares aliados a Mubarak, conduziria a transição, o receio. 

Foi aí que a coisa complicou de vez. Quanto mais os militares demoravam para deixar o poder, a população se revoltava, ocupava novamente a Praça Tahir e entrava em choques com a polícia. Até o anúncio do cronograma das eleições e a conveniente data do pleito presidencial para junho desse ano. Episódios marcantes, como o atentado no jogo de futebol, levantavam dúvidas sobre se os militares não buscavam dar o recado de que o Egito estaria mais seguro com eles a frente do poder. 

Até que, quando chegaram as eleições presidenciais, vimos novos picos de otimismo. Mas o Conselho das Forças fez de tudo para que o candidato dos militares, Ahmed Shfiq, ganhasse. Inclusive a revogação da lei que impossibilitava a candidatura de ex-membros do governo Mubarak. Mesmo assim, tudo indicava a vitória de Mursi. Um governo liderado por um membro da Irmandade Muçulmana seria algo novo, contudo despertava temores de partes da população. Eis que dois dias antes do segundo turno, os militares tiraram mais uma carta da manga. Consideraram ilegal as eleições do parlamento (que iria criar a nova constituição), dissolveram-no e transferiram o poder legislativo para o Conselho das Forças Armadas. Ao assumir, Mursi até tentou se opor, mas com o Supremo Tribunal apontando a legalidade da medida, teria que conviver com poderes limitados. E a política egípcia mais uma vez via-se diante do pessimismo. 

Quando achamos que a continuidade seria o tom dessa transição, o homem com transtorno de humores que é o Egito, surpreende-nos novamente. Após atentados contra militares egípicios no Sinai e o  complicado bombardeio como resposta, no último domingo, Mursi forçou a aposentadoria do até então ministro da Defesa, Hussein Tantawi, e do chefe do Estado-Maior Sami Anan. Dois expoentes da continuidade, pois eram parte do governo Mubarak. O presidente também revogou o decreto que garantia todo o poder legislativo aos militares e passou a concentrá-lo até as próximas eleições. Ainda esperava-se uma reação extremada do Conselho, outra surpresa. Ontem apontou que a decisão do presidente foi “normal” e parte do processo democrático. 

Ora, tendo em vista todo o processo que se desenrolou até então, seria preciso cautela antes de qualquer otimismo míope. Há quem levante duas hipóteses. Uma que os militares estiveram por trás dessa decisão e, portanto, não houve oposições. Que, na verdade, eles tem buscado renovar suas credenciais perante a sociedade e, por fim, respeitar as decisões do novo presidente. Não porque repentinamente tornaram-se bonzinhos, compraram bandeirinhas e chapéus com o rosto do presidente e entraram  para fã clube de Mursi. E sim pela falta de apoio que um golpe de qualquer natureza teria, já que o Tio Sam já demonstrou seu apoio ao novo presidente e demandou a restauração total do poder civil. Por outro lado, há os mais pessimistas, que dizem que isso é somente uma maneira de tentar um golpe branco. Com nova visão perante a sociedade, os militares estariam ainda na eminência parda do governo e assim o estariam. E tem até quem preocupe-se com esses excessivos poderes do presidente. Mesmo porque as tentativas recentes de calar a imprensa oposicionista poderia ser outro indicativo ruim…

Difícil dizer o que de fato ocorre. Mesmo porque, como já vimos, os transtornos de humores da política egípcia dificultam a visão de longo prazo. Entre otimismos, pessimismos e mudanças bruscas, temos que esperar, pois há muitos novos humores por vir.

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