Os dois lados da moeda

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Por tradição, os brasileiros são bem pessimistas com relação à economia (apesar de adorarem uma gastança e estarmos entre os países com menor tradição de poupança do mundo), principalmente por causa do histórico de hiperinflação assombra o noticiário (quem não viveu aquela experiência percebe como os mais velhos se preocupam). Essa é uma percepção que cabe no cenário atual?

Nesta semana, divulgaram-se dois relatórios sobre indicadores econômicos de teor diferente mas com causas semelhantes. O primeiro, mais perturbador, foi de como o Tesouro Nacional está com um rombo de mais de 30 bilhões de reais do ano passado, o primeiro déficit desde que a medição começou, comprometendo a dívida pública e exigindo medidas de ajuste que serão amargas. Por outro lado, o IBGE também anunciou que em 2014 a taxa de desemprego no país atingiu uma mínima histórica de 4,8%. Estamos falando de um nível próximo do pleno emprego, o que é fantástico em comparação a países que sofrem para alocar sua força de trabalho.

E existe relação entre as duas? Boa parte daqueles gastos do governo foi justamente para garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho, com incentivos e desonerações que mantêm o consumo em alta (e por consequência, o emprego). Claro que o lado negativo disso é a inflação (aumenta o consumo, aumentam os preços), a que nossos economistas ortodoxos respondem com aumento na taxa de juros (já que aumentar impostos é muito impopular). Aumentando os juros, se espera que o consumo seja freado, e assim se controle a inflação. O interessante é justamente que o Brasil está na contramão do mundo com as taxas de juros elevadas – a tendência mundial é justamente de baixa nos juros para incentivar o consumo pós-crise. Países como a Dinamarca chegam a estar com juros negativos (ou seja, deixar dinheiro no banco faz o investidor perdê-lo).

Nem tudo são flores – essa situação de emprego em alta esconde alguns fatores (como alocação de mão-de-obra ociosa) e não é sustentável, logo o desemprego deve voltar a crescer justamente por conta dos ajustes macroeconômicos. Sem contar que a situação das contas públicas é alarmante. Mas é uma situação privilegiada sim – países como Espanha e Grécia estão com problemas de contas públicas semelhantes ao brasileiro, mas em situação ainda pior devido ao encolhimento da força de trabalho e desemprego galopante (na Europa está perto de 11%, intolerável mesmo no continente com um histórico de desocupação elevado por conta das políticas de bem-estar social). O Brasil tem a sorte de se colocar em uma posição na qual tem condições de controlar tanto o desemprego quanto a inflação em médio prazo – o que dependerá do quanto o governo estará disposto a investir nos setores corretos, cortar gastos e aguentar o impacto político, e do quanto a população aprenderá a poupar, tolerará os ajustes e a insatisfação.

A situação é complicada – mas podia ser pior. Podemos nos dar um pouco de otimismo.


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