Os Brics no G-20

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O G20 financeiro foi criado para ser um mecanismo de concertação política visando o fortalecimento da economia global. Com o impacto profundo da crise de 2008 nas economias desenvolvidas, tornou-se um palco de autopromoção para os países em desenvolvimento e forçou um redirecionamento dos principais temas econômicos mundiais do G-8 para o G-20. Esta é a visão de países como Brasil e China. Neste sentido, reuniões como a desta semana na Rússia são oportunidades perfeitas para exigir reformas nas instituições financeiras internacionais.  

Contudo, e apesar da larguíssima Declaração de São Petersburgo, o G-8 e o G-20 parecem ter diferentes horizontes em mente. Grandes players do G-8 ainda apresentam recuperações tímidas, enquanto parte do G-20, especialmente os BRICS, vem de sustentar o nível de crescimento mundial e tem seu crescimento arrefecido. Por outro lado, existem, como evidenciado no documento da última reunião, pontos comuns, como: a necessidade de continuidade dos esforços para mitigar problemas regulatórios no mundo das finanças, de retomar as negociações multilaterais de comércio e de promover uma transição para modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.  

Além do embate G-8 e países em desenvolvimento, o G-20 enseja a oportunidade de tratar de temas que interessam a todos. O Brics, em encontro paralelo antes do início da Cúpula, traçou alguns pontos interessantes. Antes de tudo, expressou preocupação em relação a repercussões negativas não intencionais de políticas monetárias não convencionais de alguns países. Uma longa frase para fazer referência aos sinais que o Fed (Banco central norte-americano) pode diminuir o ritmo dos estímulos que aplicou para reavivar a atividade econômica e de que o Banco Central Europeu pode igualmente iniciar uma subida de sua taxa básica de juros.  

Nas palavras do ministro da Economia brasileiro, Guido Mantega, há uma mini-crise nos países em desenvolvimento decorrente de movimentos em mercados desenvolvidos. Enquanto os países desenvolvidos retiram (ou indicam retirar) estímulos, os países em desenvolvimento sofrem com as desvalorização de suas moedas (como no caso da rúpia indiana e do real brasileiro) e veem capitais internacionais ensaiarem um retorno aos mercados maduros. Os Brics, contudo, apontam que estarão preparados. Primeiro, criaram um Arranjo Contingente de Reservas em seu último encontro. Segundo, celebram avanços nas tratativas para estabelecer um Novo Banco de Desenvolvimento.
 

Os Brics não conformam um bloco unitário, há divergências (como no caso da reforma das Nações Unidos) e convergências (como sobre a necessidade de reforma das instituições internacionais), mas ao menos se esforçam para consolidar alternativas. O Arranjo Contingente de Reservas, por exemplo, poderia substituir um empréstimo do FMI. O Brics quer a reforma do FMI, porém tem desde já um mecanismo similar próprio. Em sentido diferente, ao levantar preocupações sobre repercussões negativas de políticas dos países desenvolvidos reforçam a importância de terem um campo de negociação como o G-20. Portanto, o caminho para alternativas existe e até começa a ser trilhado, o que não implica abandonar fóruns de debate mais abrangentes.  


Categorias: Economia, Política e Política Externa


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