Ordo ab chao

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A expressão em latim “Ordo ab chao”, que quer dizer “ordem no caos”, é um dos lemas mais famosos do Rito Escocês Antigo e Aceito da maçonaria e é perfeitamente adaptável a situação corrente no Haiti. Não é novidade para ninguém a devastação do país em decorrência de um terremoto no último dia 12 de janeiro, que ceifou a vida de aproximadamente 150 mil pessoas. Muito também se falou sobre as perdas humanas significativas do nosso país: Zilda Arns, Luiz Carlos da Costa e 18 militares. Agora, gira o turbilhão haitiano de dúvidas e incertezas, levanta-se o caos dos escombros de uma deturpada ordem e à procura desta enveredam-se os esforços de um mundo que evoca a solidariedade.

No primeiro pedaço de terra da América onde se hasteou o valor da liberdade, hoje padecem crianças sem pais, pais sem filhos, mulheres sem marido e sonhos sem vida. Avança o fantasma da fome, da miséria, da destruição e da desolação, transformando o glorioso passado de escravos que lançaram a profecia de um continente livre num retrato esquecido da história. Desde então, a opressão e a instabilidade se tornaram as companheiras diletas da nação. A assombrosa presença norte-americana e o mito da esperança democrática, crônicas de uma morte anunciada, prenunciavam o caos sobre a ordem. E veio a MINUSTAH… E veio o terremoto. E agora “Nós não estamos recomeçando do zero. Estamos abaixo do zero”, segundo as palavras de Edmond Mulet, representante da ONU do Haiti, em entrevista à Folha de São Paulo ontem.

Mais do que recomeçar abaixo de zero, a crise humanitária no Haiti engendrou discussões de todos os tipos e todos os gostos. Hoje falamos de uma solidariedade que o tempo venceu. Evocamos valores humanos de uma sociedade cosmopolita kantiana num sistema internacional, cujas ruínas do templo de Westphalia ainda suscitam a desconfiança e a destruição, sob a insígnia da soberania. Uma solidariedade negligenciada em Copenhague – quando supostamente não precisávamos de acordo definitivo sobre as mudanças climáticas – e desvirtuada pela sede de liderança. Quem deve reconduzir o processo de reconstrução do Haiti? Um novo Plano Marshall? Qual o caráter das missões de paz? Quem o define?

Ah, é claro, nossas respostas. O premiê canadense, Stephen Harper, anfitrião da pré-conferência sobre a reconstrução do Haiti, parece ser mais otimista, acreditando que o processo durará 10 anos. Hillary Clinton defende que a liderança da reconstrução deve permenacer sob o controle do governo haitiano. Nosso chanceler, Celso Amorim, advoga em prol do protagonismo brasileiro na América Latina e Caribe e argumenta a favor da manutenção do mandato da MINUSTAH como uma força de paz garantidora da segurança, sem participação na reconstrução, o que mudaria seu caráter e aumentaria seu grau de intervenção. Amorim falou até sobre um suposto “Plano Lula”, em alusão ao Plano Marshall. Ontem, o Congresso Nacional aprovou também o envio imediato de mais 900 militares para o Haiti e outros 400, se for preciso.

E no jogo de vaidades da comunidade mundial não poderia faltar a questão: as nações em desenvolvimento mandam os seus soldados para o Haiti e eles devem cumprir os objetivos que são definidos pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isto enceraria no mote: os ricos mandam, os pobres obedecem. Todavia, não é tão simplório. Os pobres querem irromper o silêncio e a inércia, querem expressão e grandeza.

Há um caos no Haiti e outro na anárquica comunidade internacional. Não se sabe ao certo o que é maior: a solidariedade ou o poder e seu gêmeo siamês, o prestígio. Atuar no Haiti, num rincão do planeta Terra, só faz sentido no entorno deste Taiji Tu (ou Ying e Yang) contemporâneo das relações internacionais, em que toda solidariedade traz consigo um resquício de poder e todo poder, um resquício de solidariedade. Nesta luta constante, o equilíbrio é mais frágil do que o religioso. Encaminha-se para o caos, que clama pela ordem. Ordo ab chao.

É hora de dizermos se estamos à altura dos desafios que nos conclamaram os povos do mundo, parafraseando Kofi Annan em uma de suas delcarações conclamando a solidariedade mundial.


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