Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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