Olimpíadas de Londres: lições para o Brasil

Por

 
 
 

[Pouco mais de uma semana após o encerramento das Olímpiadas de Londres, o colaborador Giovanni Okado nos oferece uma interessante análise a respeito, com enfoque para as lições que ficam para o Brasil, próximo país-sede dos jogos. Vale a pena conferir!]

 

As Olimpíadas de Londres, belíssimas e históricas, acabaram. Suas lições para o Brasil, não. Mais do que a organização e a logística, os jogos olímpicos despertam em nós, brasileiros, uma questão essencial: que país queremos ser? Para responder essa pergunta, é preciso um amplo debate entre governo e sociedade. Todo governo é reflexo dos anseios e das inércias da sociedade.

Quando o cidadão quer algum bem, certamente haverá ações, boas ou ruins, para supri-lo. Quando o cidadão não se manifesta sobre um bem, os governantes adotarão medidas sem qualquer consentimento popular. No Brasil, o esporte é um bem que se enquadra em ambas as categorias e, ao mesmo tempo, em nenhuma delas. 

As Olimpíadas demonstram a baixa valorização do esporte no Brasil. Somos, é claro, um povo apaixonado, que torce, vibra, sofre e chora com cada vitória e derrota de nossos atletas. Mas somos, antes de tudo, um povo que pouco entende o sacrifício deles, as situações adversas a que se sujeitam no dia a dia, para se tornarem a esperança de uma nação ouvir o brado retumbante ecoar no mais alto lugar do pódio. E não adianta dizer que isso é problema apenas do governo, que não incentiva o esporte, é também um problema da sociedade, que cria mitos esportivos ingênuos – boa parte deles, produzidos e reproduzidos pela mídia.

De que adianta ganhar, finalmente, a primeira medalha de ouro no futebol se ela conta apenas como uma medalha de ouro na classificação geral? Por que ficar falando que o Brasil é o país do futebol, quando a nossa hegemonia esportiva se impôs no vôlei, de quadra e de praia, masculino e feminino? Por que não investirmos mais em esportes individuais, como o atletismo e as artes marciais, que garantem mais medalhas? O grande problema é que não pensamos no coletivo e reduzimos as Olimpíadas a emoções particulares, ainda irrealizadas.

Um país de 200 milhões de habitantes tem potencial para descobrir talentos, pessoas com dons inatos e características próprias para determinados esportes, como é o caso do maior medalhista olímpico, Michael Phelps. O esporte deve ser encarado como uma atividade profissional no Brasil. Do contrário, continuará revelando heróis, como Sarah Menezes, Arthura Zanetti, os irmãos Falcão, sobre os quais depositamos nossas expectativas e frustrações, e não atletas, cuja missão é competir para vencer.

O esporte afeta as dinâmicas das relações internacionais. Basta lembrar que a Guerra Fria jamais foi uma competição travada exclusivamente pelas armas e, nas Olimpíadas de Pequim, os Estados Unidos alteraram, internamente, os critérios de pontuação para se considerarem vencedores – recorda-se que a China obteve mais ouro e, na soma dos pontos, terminou em primeiro lugar. O esporte é uma oportunidade de demonstrar para o mundo o modelo de desenvolvimento socioeconômico adotado por qualquer país e avaliar os resultados desse modelo.

Nos últimos anos, o Brasil alinhou crescimento econômico com inclusão social. Chegou a ocupar a sexta posição no ranking das maiores economias mundiais e retirou da miséria cerca de 20 milhões de brasileiros. A pujança econômica e a melhoria social não condiz, entretanto, com o IDH do país (84º colocado no ranking), as altas taxas de violência e, por que não, a posição no quadro olimpíco de medalhas. País rico, como diz o mote do atual governo, é, sim país sem miséria, e o esporte é essencial para esse fim.

Por enquanto, as políticas sociais atuais, com destaque para o Bolsa Família, permitem ao cidadão vencer os liames da pobreza. É preciso incluir o esporte nessas políticas, pois não basta retirar as pessoas da pobreza sem lhes dar uma opção de vida. Isso incentivaria a formação de atletas, como profissionais, para representar nosso país nos principais eventos esportivos internacionais.

Os desafios para o Brasil parecem imensos e as Olimpíadas do Rio já estão aí. Em 2016, teremos uma oportunidade especial de mostrar ao mundo o nosso modelo desenvolvimento socioeconômico, que país somos e a que aspiramos. Desde já, entoa o título da obra de Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro”, nas esperanças de que essa nação alcance seu destino. Pensar no esporte é uma das maneiras de concretizar essa visão, não como um projeto ufanista, mas como uma realidade concreta. 


Categorias: Brasil


0 comments