Olha ele de novo aí, gente!

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Pois é turminha, olha o tempo fechando novamente na região andina! As relações Colômbia-Venezuela me lembram, em certa medida, briga de irmãos: não te aguento, mas não te largo.

O novo impasse entre eles diz respeito a uma suposta ajuda chavista às FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), com fornecimento de armas à guerrilha. Mas uma coisa me chamou a atenção quando li a notícia no jornal . Se Bogotá avisou Caracas de ter encontrado armamentos venezuelanos com as FRACs em 2008, por que só agora trouxe caso a público? Se o fato era tão grave, por que esperar tanto tempo pela resposta, e só agora, quando houve manifestação dos países da região contra o acordo da Colômbia com os Estados Unidos de aceitar instalar bases militares em seu território é que a “bomba estoura”? Outra coisa curiosa: as armas foram compradas em 1988, e segundo o vice-presidente venezuelano, foram roubadas em 1995. Em nenhum desses períodos Hugo Chávez estava na presidência ou ocupando algum cargo do governo. Por que seria ele o responsável pelo desvio desses armamentos?

É amiguinhos! Isso tudo tem cheiro de teoria da conspiração! Ainda mais quando se sabe que o governo bolivariano acredita firmemente que a Colômbia está sendo usada pelos Estados Unidos para desestabilizar seu país. O Golpe de Estado em Honduras foi um sinal de alerta à iniciativa venezuelana de formar um bloco regional independente.

Na minha modesta opinião, nenhuma dessas suspeitas e respostas para as perguntas acima serão verdadeiramnete respondidas. Isto porque, mais do que nunca, verdades podem ser construidas de maneiras muito convincentes.

Acredito, firmemente, na hipótese dessa crise ter sido gerada para desviar a atenção das nossas futuras vizinhas bases militares. Sinceramente, não sei se a Colômbia suportaria a pressão sul-americana contra a instalação dessas bases.

Por outro lado, não concordo com uma jornalista política que disse que a política externa do Brasil pegou novamente o bonde errado por ter tomado partido da Venezuela nessa controvérsia, e de que a nossa tradição, desde Rio Branco, é tentar apaziguar os ânimos. Alguém tem que avisar para essa moça que os tempos são outros, e embora o Brasil não tenha abandonado a tradição conciliadora de outros tempos, tem um novo papel na região, o de líder reconhecido, que às vezes é criticado sim, mas que teve coragem de chegar aos Estados Unidos e dizer: nós agradeceriamos muito se nos deixassem cuidar de nossos assuntos sem sua interferência.

O Brasil, no seu papel de líder regional, não tomou partido da Venezuela, mas questionou a atitude de um vizinho que optou por outro alinhamento, sistematicamente recusado por muitos países da região. Talvez esteja na hora da Colômbia deixar de ser mirim e sair debaixo da saia da potência do norte. E que bom que o Brasil está tomando conta do nosso quintal!

Quanto a Venezuela…Bom, acho que o Chávez tem um jeito meio … de ser, mas só está tentando se defender e a seu país das acusações colombianas. Nós já vimos, muitas vezes, ele retirar seus embaixadores de países com quem teve alguma rusga, mas depois de um certo tempo, as coisas tendem a se normalizar. Acredito que seja apenas retórica dissuasória.



Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos


7 comments
Adriana Suzart
Adriana Suzart

Caro Alcir,Realmente o fato do conflito interno transbordar de suas fronteiras é algo surpreendente. E é essa característica que levou a ONU categorizar este fenômeno como nova ameaça. O que temos hoje em termos de conflito é muito diferente dos conflitos interestatais que se conhecia, por exemplo, na Segunda Guerra.Há, hoje, uma gama enorme de novos atores que ameaçam a segurança do Estado, desde guerrilhas com motivações políticas, como as FARC, até atores terroristas, como a Al Qaeda, passando por grupos separatistas, como o ETA, na Espanha. E com exceção deste último, todos os fenômenos enquadrados como novas ameaças acontecem em Estados Fracos ou também chamados Estados Falidos, definidos como aqueles que não conseguem estabelecer e manter a ordem interna.Em minha modesta avaliação, é algo parecido com isso que acontece com a Colômbia. Um conflito interno que extravasa pelas fronteiras aos países vizinhos, em grande medida, porque o Estado colombiano não tem controle de seus limites territoriais e de boa parte do seu território mesmo com a ajuda estadunidense, cuja finalidade verdadeira não é restituir a estabilidade interna do país, mas manter-se na região. Ou será que as novas bases militares são para outra coisa? Não vou entrar no mérito de que a floresta não ajuda e que a geografia dificulta a defesa da região.Nesse sentido concordo com você que realmente as questões de segurança, atualmente, são muito mais complexas...Outro Abraço!

Alcir Candido
Alcir Candido

De fato, Adriana, as empresas saem mesmo, a inflação na Venezuela beira os 40% ao ano e o país sofre uma crise de desasbatecimento séria, o que indica o nível crítico da atividade produtiva no país, mesmo em um contexto de crise em que o natural em uma economia equilibrada é a pressão deflacionária... Isso prejudica os venezuelanos e os brasileiros.O Brasil nunca vai fazer pressão na Venezuela, sendo o 2, 3, 4, 1 ou qualquer posição que ocupe como credor. Nem os EUA que abastecem o chavismo com os petrodólares faz qualquer pressão... Ainda mais o Brasil com a postura que tem adotado.Não só de comércio vive um país, mas esse é um componente muito importante. TODAS as potências na história dominaram em termos econômicos e, se o Brasil quer ser gente grande, como diz o Giovanni, tem de tomar uma posição mais firme nesse sentido. A chave da hegemonia militar e econômica dos EUA está no domínio dos mares e dos pontos onde fluem o comércio mundial, isso desde o almirante Mahan, que inclusive pregou a criação de alguns deste 'pontos chaves' como o Canal do Panamá.É exatamente esse pensamento de que as empresas não são obrigadas a ficar onde têm prejuízo que justifica o atraso do nosso continente em relação aos outros lugares e a dificuldade que se tem por aqui em se fazer negócios e gerar desenvolvimento econômico. Afinal, nunca vi nada disso nas dezenas de golpes que sofreu a Bolívia no último século, por exemplo....Agora, é surpreendente ler "se a guerrilha consegue transcender as fronteiras colombianas, este fato deve-se a incompetência de seu governo e de seu aliado estadunidense, que não consegue conter um movimento interno."... As questões de segurança internacional hj são muito mais complexas do que isso...

Adriana Suzart
Adriana Suzart

Caro Alcir,Você tem razão quando diz que empresário nenhum gosta de instabilidade política. Mas nem só de comércio empresarial vive um Estado. Muitas vezes há outros interesses em jogo. Se o Brasil conseguir se tornar o segundo maior credor da Venezuela, poderá ter maior influência sobre Chávez e maior controle sobre seus arroubos retóricos. Lembre-se a Venezuela é quase membro pleno do Mercosul. Além disso, as empresas não são obrigadas a ficar em um país que lhe prejudique. Se a corrupção na Venezuela afeta os negócios a tal ponto de afetar a lucratividade da empresa, ela deve procurar nichos melhores de mercado. A empresa visa seus próprios interesses, se nesse cenário ela ainda opta por permanecer no país é porque algum benefício ela vê no horizonte. Não nos enganemos.Quanto o Brasil e as FARCs é bom lembrar que um país é soberano em suas relações. O Brasil pode eventualmente ter mantido ou manter relações com a guerrilha. O problema é o que a sociedade internacional faz com essa informação ou como a interpreta. No caso da Venezuela, é usada sempre em tom acusatório. E alguns analistas dizem que os EUA vivem procurando uma brecha para justificar uma invasão colombiada a este Estado. Não nos esqueçamos que a invasão da Colômbia ao território equatoriano lançou mão da mesma desculpa: envolvimento de Correa com a guerrilha. Ou seja há precedentes que ratificam a desconfiança venezuelana.A Colômbia podia pelo menos ser mais original em seus ataques. E só para arrematar, se a guerrilha consegue transcender as fronteiras colombianas, este fato deve-se a incompetência de seu governo e de seu aliado estadunidense, que não consegue conter um movimento interno.Cordialmente,

Alcir Candido
Alcir Candido

Olha, Adriana, não concordo. Em termo de negócios as coisas não acontecem assim, automaticamente. Num primeiro momento, por questões estatísticas, podemos até, de fato, subir uma posição qualquer, mas empresário nenhum gosta de correr riscos, ainda mais no contexto de uma crise internacional. Esse teatrinho do Chávez só traz instabilidade política que, por sua vez, só traz problemas pra qualquer empresa, esteja ela sofrendo pela corrupção da venezuela ou tentando exportar pra lá ou investir naquele país de alguma forma.No caso brasileiro de envolvimento com as FARC, já há INÚMERAS denúncias de que o governo brasileiro de alguma fora se envolve com aquele grupo terrorista. Inclusive trocas de emails entre comandantes das FARC e membros do nosso governo. E o governo não fez nada que não negar tudo...Um país pode se colocar no sistema de várias formas. A Venezuela se colocou também, de uma forma ou de outra.

Adriana Suzart
Adriana Suzart

Caro Alcir,Se a Venezuela fechar mesmo a fronteira com a Colômbia como prometeu o presidente, o Brasil sairá lucrando com isso pois passará a ser o segundo parceiro comercial da Venezuela, lugar hoje ocupado pela Colômbia.Perde-se de um lado, ganha-se de outro. E depois, eu tenho um palpite, só um palpite, de que ele não vai cumprir a ameaça de expropriar nenhuma empresa colombiana. Ele faz isso com empresas norte-americanas, não de países vizinhos.Ele sabe que isso não é bom para integração regional, uma de suas principais pautas de governo, e é por meio dessa integração que ele pretende fazer frente realmente aos EUA. Ele sabe que sozinho não consegue muita coisa.Agora nos coloquemos no lugar da Venezuela. Já pensou se o TPI decide que o Brasil também tem envolvimento com as FARC? O que será que o presidente Lula vai fazer? Com certeza chamar seu embaixador na Colômbia, como fez com o embaixador brasileiro no Equador no caso da Odebrecht, que era inclusive uma empresa privada...Nesses momentos é preciso que haja medidas desse tipo, pois são por meio delas que o país se coloca no Sistema Internacional.Um Abraço

Alcir Candido
Alcir Candido

É, Adriana, mas o Chávez abusa! Qualquer coisa é motivo pra retirar embaixadores, enfim.O problema é que cada vez que ele faz esses teatrinhos, nós aqui no Brasil somos MUITO afetados. Por exemplo, os acordos comerciais colômbia/venezuela não são cumpridos, o que afeta o comércio de muitas de nossas empresas com plantas nesses países, além do que outros já entraram no rolo também, como o Equador.