Obama, qual é a sua?

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A candidatura do democrata, em 2008, foi próxima de um fenômeno. Para o mundo, Obama representava o anti-Bush, uma alternativa para construção de uma nova relação dos Estados Unidos com os demais países. Entre outras, parecia representar uma mudança em direção da defesa dos direitos humanos e até da diminuição de arsenais nucleares. Com duas guerras na conta, esperava-se ainda a diminuição de engajamentos unilaterais.  

Um livro publicado recentemente chega a chamar os Estados Unidos agora de “a nação dispensável”, em contraposição àquela visão de que o país era “a nação indispensável” para o progresso, a prosperidade e a paz no mundo. Entre as razões para isto, estariam tanto os problemas internos que tiveram que ser colocados em primeiro plano, quanto o estabelecimento de prioridades externas equivocadas. No campo internacional, o erro teria sido voltar atenções para o leste asiático.  

Na África, por exemplo, a expectativa com relação à Obama era imensa. Agora, já no seu segundo mandato, o presidente norte-americano tenta avançar contra a frustração ao anunciar, durante sua visita ao continente, um plano de investimentos para expandir o acesso à energia em áreas rurais. Na Europa, os países da União Europeia negociam um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos. Contudo, africanos e europeus não pareciam achar que eram ou se tornaram prioridades na política exterior comandadas por Hillary Clinton até há poucos meses e, atualmente, por John Kerry.  

Enquanto isto, segue a crise humanitária na Síria. Bill Clinton, figura representativa do partido republicana, criticou duramente a administração por não tomar nenhuma atitude. No final das contas, antes de qualquer ação formal (informalmente, já auxiliam os rebeldes sírios), quais seriam os objetivos e motivações para intervir? Seria derrubar Assad, seria impedir a continuidade da crise humanitária, seria forçar Assad a chegar a um acordo com sua oposição, seria tomar uma atitude para satisfazer os críticos internos ou, quem sabe, seria uma intervenção pensando o futuro do Oriente Médio? Por enquanto, nada.  

Além disto, há outras crises recentes. Em Guantánamo, a prisão que Obama queria fechar, 41 dos 166 prisioneiros estão em greve de fome e são objeto de alimentação forçada por sonda. Os ataques com aeronaves não tripuladas, os famosos drones, aumentaram em 500% no atual governo. Contudo, ainda não é tudo. A revelação que os Estados Unidos espionaram os europeus despertou a ira do velho continente. O Brasil foi alvo de procedimento similar. No caso europeu, a descoberta que a França usa métodos de rastreamento e monitoramento, em seu território, parecidos com os dos norte-americanos arrefeceu os ânimos. A “pequena” diferença é que Obama utiliza a tal coleta de dados em outros países igualmente.  

Na segunda-feira, no jornal da TV Cultura, o historiador Marco Antônio Villa fez uma curiosa indagação. E se fosse o Bush fazendo o que Obama faz? Provavelmente, seria um escândalo e, mais uma vez, todos o criticariam asperamente. O atual mandatário, quando candidato à presidência, chegou a discursar para 200 mil pessoas na Alemanha em 2008. Como uma coroação para a esperança, foi laureado com o prêmio Nobel da Paz em 2009. A expectativa, é bom lembrar, foi fruto do próprio presidente, que deu indícios e prometeu um engajamento diferente em relação ao mundo. Na questão da espionagem no Brasil, o governo norte-americano diz ser uma prática normal e adotada por outros países. Mas, se não é grave, por que então o desespero para prender o Snowden (incluindo a crise diplomática com a Bolívia)? Tem algo estranho aí.    

O Victor, no seu post desta semana, perguntava se a NSA anda lendo o que ele escreve por aqui. Bom, segundo uma brincadeira que surgiu, com certeza o Obama está vendo nossos emails. Segue o link para “Obama is checking your email”.


Categorias: Estados Unidos, Política e Política Externa