O xadrez particular da Turquia

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Se o cerco internacional sob a Síria tem se fechado ainda mais do ponto de vista da agenda do Conselho de Segurança e da AIEA, o contexto tem trazido questionamentos interessantes sobre a posição de seus vizinhos, especialmente da Turquia.

As acusações contra o líder que já considera o Estado de emergência como normalidade, Bashar Al-Assad, variam entre proliferação nuclear ilegal (com cooperação da Coreia do Norte) e violação dos direitos humanos. No plano interno, os conflitos têm escalado. As repressões assumem proporções cada vez mais amplas, parte da população está armando-se e há quem fale sobre riscos de eclodir uma guerra civil.

Agora, o que tem chamado atenção é o âmbito regional, no caso, o governo turco. Durante a revolta no Egito, a Turquia foi o primeiro a condenar Hosni Mubarak. Quando a revolta na Líbia estourou, a Turquia tardou, mas não falhou, condenando os massacres de Kadaffi.

Mas, ainda há todo um cuidado com relação à Síria. E por quê? Bom, pra isso precisamos entrar mais a fundo no xadrez geopolítico entre esses dois países.

Desde década de 1940 que esses países vivem situações de tensões, devido a disputas do território turco de Hatay, antes clamado ser parte da Síria, mas que foi absorvido pela Turquia após a segunda Guerra Mundial. As relações conflituosas permaneceram até a década de 1990, quando em 1998, ambos os países quase entraram em guerra direta. As relações entre esses países passaram a melhorar apenas com a ascensão de Recep Tayyip Erdogan como primeiro ministro turco.

E esse é um equilíbrio que demorou a vir e que ainda é bem instável. Demorado, instável e vulnerável, esse equilíbrio se faz necessário e essencial caso a Turquia ainda pretenda dar seguimento às suas aspirações de ser aceita na União Europeia. Em resumo, todo cuidado é pouco.

Nesse contexto, uma tradição de mediação seria bem mais interessante do que a pressão direta por intervenções severas, como parecem propor alguns membros permanentes do Conselho de Segurança (apesar de também haver indicativos de a Turquia poder compartilhar de alguma resolução contra a Síria). Há ainda outra questão ainda crucial: o volume de refugiados sírios que tem se acumulado na fronteira entre os dois países e inchado a população turca.

Diferente das demais revoltas árabes, a Turquia parece ter se colocado com bastante cuidado, como que pisando em cascas de ovos, para não colocar em xeque nenhuma de suas possibilidades em seu xadrez particular. A pressão por solução pacifica pode ser tradição diplomática turca, mas como muitos dos angus na política internacional têm caroços, esse caso não se mostra muito diferente.

[Para um artigo interessante sob o fechamento do certo sob Assad, clique aqui;

Para um especial da Aljazeera sobre a crise na Síria, clique aqui]


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