O velho e o novo

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Estampam capas e notícias de jornais nesta semana a grande tentativa de se estabelecer (outra vez) um acordo de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Este tema já passou várias vezes aqui na Página Internacional, inclusive meu primeiro texto como colaborador “oficial” foi justamente sobre a questão das FARC e a governabilidade colombiana (veja aqui e aqui alguns debates). Todavia, o que dizem ser novidade neste novo processo de negociações é o apoio da comunidade internacional e da própria sociedade civil. 

Há controvérsias… Por comunidade internacional quero dizer as Nações Unidas, a União Europeia e alguns países que amparam a causa, como Estados Unidos, Brasil, Cuba, Chile, Venezuela e Noruega. Até aqui está tudo certo, afinal, para algum país publicar uma nota de apoio contra o movimento das FARC é relativamente fácil. O problema encontra-se no segundo ponto e eu, novamente, retomo esta questão. Confesso que achei engraçado quando li uma notícia na internet dizendo que “A negociação de paz entre as Farc e o governo da Colômbia conta com apoio da sociedade civil […]”. Quem lê vai pensar que o diálogo entre o governo e a população é excelente e existe uma constante participação civil nestas questões, mas não é assim. 

O que acontece de fato, e aqui vai novamente uma crítica para a grande mídia de massa, é parecer que todos os problemas colombianos residem nas FARC. Se, num passe de mágica, as FARC desaparecessem, pronto, a Colômbia seria “o país” para se viver e morar. É óbvio que vários problemas são decorrentes da atuação da guerrilha no país, mas quero dizer que nem tudo é culpa dos revolucionários. Se existem forças insurgentes em determinado território, onde estava o papel do Estado para combater este levante? 

Será a terceira tentativa para por fim aos conflitos. A primeira aconteceu na década de 1980 quando ainda existia o grupo M-19. Depois, no final dos anos 1990, o presidente Pastrana tentou criar uma zona desmilitarizada, contudo acabou não tendo sucesso nas negociações com as FARC. E, agora, tem-se o terceiro processo de negociações que se dará na Noruega e, posteriormente, em Cuba. Está aí algo realmente novo para se acabar com um “velho problema”: uma suposta mediação internacional. 

Isso é válido? Com toda certeza! As FARC realmente complicam o cotidiano colombiano? Sim! O apoio internacional é sinal dos novos tempos e pode vir a ter sucesso? Claramente! A sociedade civil está participando realmente deste processo? Não e não! Não se enganem em achar que as FARC são as “únicas pedras no sapato” do governo. Existem diversos outros problemas, dentre eles a falta de governabilidade democrática que prevê justamente um maior diálogo entre Estado e população, que tolhem o eterno futuro pacífico da Colômbia. Combater estes grupos faz parte do desenvolvimento das negociações, entretanto ainda falta observarmos o outro lado da moeda. É uma carência, e muito, nas notícias vinculadas na mídia também. 

PS: O governo colombiano divulgou notas dizendo que o país tornou-se a segunda maior economia sul-americana. Para mim, é mais falta de mérito da própria Argentina (antiga vice-colocada) do que aptidão da Colômbia. Nada mau para manter a postura contra as FARC e começar a olhar com mais nitidez a outros problemas sociais.


Categorias: Américas, Conflitos, Mídia


1 comments
Rangel
Rangel

Quando lemos algum texto relacionado ao assunto, a nossa a liberdade de expressão é que, "ai vem bomba", na verdade sou partidário de sua fala quando diz:"A sociedade civil está participando realmente deste processo? Não e não! Não se enganem em achar que as FARC são as “únicas pedras no sapato” do governo."Assim, só nos restam esperar, já que se a paz reinar entre as partes será inédito, sem sombra de dúvidas.