O último baile: o adeus de Uribe

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Nos últimos anos, a relação amor e ódio de Uribe com os auto-proclamados socialistas do século XXI – leia-se Chávez, Correa, Morales – foi talvez o ponto alto das retóricas diplomáticas posicionadas em extremos opostos na América Latina. Como bem desenvolvido por Raphael ontem aqui na Página Internacional, foram muitos os capítulos das desventuras, em especial entre o líder venezuelano e o colombiano.

Chávez não dá sinais que pretende eleger um sucessor que não seja ele mesmo; ao passo que Uribe apesar não ter sido impedido de posicionar-se como candidato a uma segunda reeleição, viu eleito seu Ministro de Defesa – talvez o maior artífice dos planos que tanto semearam discórdia com os bolivarianos – para seu sucessor. Como em toda relação amor e ódio, um não pode existir sem o outro. Tudo indicava, assim, que apesar da troca de personagens, as desventuras teriam novos e longos capítulos. Certo? Eis que surge uma mudança de roteiro.

Juan Manoel Santos, presidente eleito na Colômbia, demonstrou intenções de retomar relações mais amigáveis com seus dois principais “problemas” diplomáticos, justamente Venezuela e Equador. A escolhida para ministra de Relações Exteriores foi Maria Ángela Honguín, que fora embaixadora colombiana na Organização das Nações Unidas e havia renunciado por discordar os despachos políticos advindos de Bogotá e do oficialismo de Uribe. Santos ainda foi além, enviou a sua chanceler a Quito para discutir os novos rumos da relação bilateral com seu homônimo equatoriano, Ricardo Patiño, além de ter uma reunião agendada com o chanceler venezuelano. Esse filme, que mais parece uma saga, parecia ganhar novos contornos. A posse de Santos, que ocorrerá em duas semanas, já tinha a presença confirmada de Rafael Correa, presidente equatoriano.

Uribe parece não ter digerido bem a nova (possível) diretriz em política externa sob a futura presidência de Juan Manoel Santos. O jornal equatoriano Diário Hoy trouxe uma metáfora interessante: Uribe faz uma manobra de mau perdedor, antevendo a evidente perda de controle, prefere destruir o tabuleiro a ver outro adversário ganhar. As novas denúncias entregues por Uribe contra o mandatário venezuelano, dão conta do seu envolvimento com as FARC e com o ELN, grupos criminosos ante a comunidade internacional e classificados como terrorista pelo atual governo colombiano. Foi o suficiente para Hugo Chávez convocar imediatamente o seu embaixador na Colômbia de volta à Venezuela e romper novamente as relações diplomáticas entre os dois países.

No entanto, as implicações foram maiores. O atual (agora ex) presidente da Comissão Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), o embaixador equatoriano Francisco Proaño, recebeu uma solicitação do governo colombiano para abrir sessão extraordinária na Comissão com o objetivo de apresentar as novas evidências. O regulamento do organismo regional impõe que demandas assim sejam atendidas. Proaño, que assumiu a presidência rotativa do órgão em primeiro de Julho, ao invés de acatar a solicitação, entregou sua carta de renúncia de seu posto diplomático ao presidente equatoriano Correa, justificando que havia recebido instruções categóricas de seu governo, na figura do chanceler Patiño, no sentido postergar a reunião demandada pela Colômbia. Mais uma atitude de solidariedade de Correa para Chávez, evidenciando o seu alinhamento. Claro que o diplomata de carreira Proaño teve suas denúncias prontamente desmentidas por Patiño.

Voltando ao nosso tópico inicial. Já discutimos em outras ocasiões o governo Uribe, com seus pontos positivos e negativos. A diplomacia, em sua essência, é uma política de Estado, qual seja, apresenta continuidade independente da posição política e ideológica dos governos. Os mandatários latino-americanos, em grande parte, não entendem o fazem questão de contradizer tal premissa, armando sua política externa com as mais ferrenhas posições ideológicas, ou mesmo pessoais. Historicamente, Venezuela, Colômbia e Equador são países irmãos, que adotaram o caminho da cooperação em grandes momentos da história, não só regional.

Não obstante, Uribe não suportou ver sua visão pessoal descartada por seu sucessor e como todo “menino mimado” entrega um governo com relações estremecidas com a Venezuela, ao contrário da lógica de deixar tal assunto para o presidente que assumiria em menos de duas semanas. Mesmo assim, tudo indica que este foi o último baile, ou melhor, a última valsa que Uribe dançou com sua própria música, já que Santos, novamente, tratou de tentar amenizar as denúncias, abrindo novas portas as discussões, negociações e cooperação com os bolivarianos ou socialistas do século XXI.


Categorias: Américas


3 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Olá Mário,Muito legal podermos debater estas temáticas tão controversas. É o mesmo debate que construímos entre estudantes e graduados em Relações Internacionais, mas que, em geral, não atingem um público além dos acadêmicos da área.E de minha parte, entendo como extremamante válido pontos de vistas diferentes sobre qualquer temática. Muito obrigado pelos comentários,Abraços,

Mário Machado
Mário Machado

nessa quase-hipotese que levantei caberia o silêncio de Santos. Acho um excelente tema pra o debate austero que francamente é raro na blogosfera, por isso estou aqui a flodar seus comentários.Os autores aqui sei que sabem que não estou a trolar ou rebater apenas atendo o chamado ao debate, expicíto isso para os leitores eventuais não achem que eu estou a querer fomentar o fluxo de leitores em minha página por meio da polêmica. Não é meus estilo e até onde li não é o de vcs.Abs,

Mário Machado
Mário Machado

Luís Felipe,Ainda não tenho uma posição formada sobre o timing da apresentação das acusações pela Colômbia. A meu ver é prematuro admitir que seja uma tentativa de Uribe de se manter relevante em seu ocaso. Tendo (e com ênfase no tendo) a ver essa ação como uma tentativa dos políticos colombianos de desarmar um eventual teste de Chávez quando a PE sob Santos, isto é, ao colocar Santos como moderado não dão alternativa a Chávez além de abaixar seu tom o que facilitaria o andamento de um governo que tende a começar bastante ativo na guerra contra as FARC. Mas, ainda não tenho elementos para construir uma hipótese mais robusta que pretendo apresentar em meu blog e nesse meu intento seu texto é muito util para ajudar a refletir.Abs,