O trem da alegria

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Aproxima-se o momento. O Brasil já está em clima de campanha para as eleições presidenciais de 2010. É o momento de pegar candidatos na mentira. Uma das artimanhas mais utilizadas nesse período é o uso na máquina pública em favor de determinados pré-candidatos (alguns não tão “pré” assim).

Pensar a democracia remete aos áureos tempos da Grécia Antiga, mais especificamente ao regime empregado em Atenas. Faz alusão, em realidade, a um sistema político possível no qual pessoas soberanas governam a si mesmas, utilizando, para isso, os recursos e instituições imperiosos para consubstanciar tal objetivo. Pode-se dizer que a experiência dos gregos permeou as mais diversas manifestações políticas que se seguiram, passando pelos romanos; pelos ideários liberais do Iluminismo; e atingindo, talvez, seu ápice com a derrota dos totalitarismos na Segunda Guerra Mundial.

Não obstante ao fato de ter se tornado o modelo mais basal da organização política no pensamento ocidental, o resultado conspícuo dos governos que o tomam como princípio não é necessariamente o poder para todos, no sentido grego, qual seja, uma sociedade que respeitaria as liberdades individuais, a diversidade e os direitos fundamentais; mas sim, em grande medida, sociedades de expressiva desigualdade política, de poder decisório circunscrito a grupos sociais específicos e na qual os procedimentos de deliberação não remetem aos anseios do povo.

A política brasileira é marcada por conchavos, acordos de bastidores e o emprego de qualquer meio que garanta benefícios políticos. Isso não é exclusividade do Partido dos Trabalhadores – longe disso, na verdade. Nem mesmo há indícios que a ascensão de outro partido ao poder mude tal valoração.

Contudo, brincadeira tem limite. Ninguém é “trouxa” também.

Já não basta mais o presidente Lula – nosso representante-mor – carregar sua ministra e pré-canditada a presidência, Dilma Roussef, em eventos oficiais para descaradamente construir sua campanha. Além disso, se ocorrer um apagão, nada mais justo do que quase esconder Dilma – que só foi aparecer para comentar a situação quase dois dias depois (logo Dilma que foi Ministra de Minas e Energia). Se surgirem questionamentos ao currículo de Dilma, nada mais justo do que novamente se abster.

Eis que surge uma nova Dilma. Como diria Baudrillard, estamos vivendo a hiper-realidade, só pode ser. Dilma é a mãe do PAC, mas se tiver apagão; prestação de contas irregulares de acordo com TCU; ou questionamentos dos ambientalistas, a culpa será de um burocrata pouco competente. A mesma Dilma que tão pouco se apegou a proteção ambiental durante seu período como Ministra de Minas e Energia, surge como a porta-voz da ambiciosa proposta de redução de emissões que o Brasil levará a COP-15, em dezembro. É a nova mãe do projeto de sustentabilidade na Amazônia. Só esquecem (ou não) de lembrar do Pré-sal, que também tem Dilma como uma de suas grandes figuras. Esses filhos logo vão começar a brigar. O que não deve ser problema para a hiper-mãe Dilma.

O que puder ajudar, em termos eleitorais, permanece em pauta, vide o possível Bolsa-celular. Afinal, nada mais útil as famílias de baixa renda do que um celular e sete reais por mês de crédito, não? Educação? Para que? Eu quero é um celular, isso sim.

Democracia, em um sentido amplo, seria o mecanismo intermediário entre o poder e a vontade (igualdade e liberdade). Para os gregos, o bom cidadão empregaria sua virtude cívica para buscar o bem, e sendo assim, promoveria a virtude em sua comunidade. O pensamento ocidental formalizou a tradição democrática, buscando formas de positivar os direitos individuais, seja através de um contrato social, do estabelecimento de governos representativos ou da separação de poderes. A instrumentalização democrática visando proteger o indivíduo, antes de seus iguais e depois do próprio Estado, ampliou seu espectro, passando a atingir mais pessoas e regiões, ao passo que distanciou gradualmente o indivíduo das decisões políticas.

Os nossos promotores da cidadania e dos ideários democráticos não parecem idôneos. O apego ao poder e suas benesses move os passos dos políticos. Temerário é considerar o exemplo de conduta com o bem público. Capitalizar (não somente em termos financeiros) é a regra de ouro.

Brincadeira deveria ter limite. Filho ruim não tem pai, nem mãe. Dilma que o diga. A alegria parece não ter fim. Mesmo para um assunto tão sério: a condução dos rumos do Brasil, de tantas potencialidades e que está prestes a decolar, nas palavras de The Economist.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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