O toque do novo Midas

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A internet é uma ferramenta fantástica. É capaz de reduzir distâncias, derrubar fronteiras e fornecer informação com uma velocidade impressionante. E, com a mesma força, pode ainda separar mais as pessoas, ampliar muros e substituir o conhecimento pela informação rápida. Como uma nova versão do rei Midas que, ao invés de transformar em ouro tudo o que toca, pode abrir um universo de novas possibilidades a tudo que entra na rede, enquanto também pode provocar a raiz da própria ruína. 

Um interessante exemplo da força desse nosso novo Midas, foi o vídeo produzido pela ONG (clique aqui para conferir) “Invisible Children” que gerou o maior bafafá (virou até matéria do Fantástico). Motivações muito nobres, disseminadas em uma velocidade impressionante e que, da mesma forma, traziam uma visão simples de uma situação extremamente complexa. Se você está lendo esse post hoje, quase duas semanas depois da divulgação do “viral”, provavelmente você já ouviu falar ou até mesmo chorou assistindo-o. 

O vídeo retrata a situação das crianças soldados em Uganda, utilizadas pelo líder da LRA (Exército de Resistência do Senhor), dos abusos do líder do movimento, Joseph Kony e das violações de direitos humanos. Para tentar solucionar o problema, urge todos que assistiram a participar da campanha para tornar Kony famoso e até mesmo contribuir com recursos para a organização. O objetivo seria pressionar os governantes para incluir os problemas de Uganda em sua agenda política e urgi-los a agir. 

A divulgação representa outro exemplo do ciclo “humanitari-ático” que a Bianca citou em seu último post. Da comoção, partir-se-ia para a ação. Mas, logo o nosso Midas virtual sente a frustração de suas habilidades. Se a comoção foi grande, a crítica também veio com a mesma força. As discussões sobre doações logo deram lugar a tentativas da organização de se justificar frente às denúncias de falta de auditoria dos gastos da ONG (clique aqui e aqui para ler as respostas da Invisble Children) e até mesmo de ações públicas, diga-se de passagem, bem estranhas, de um dos diretores e editor do vídeo, Jason Russell. 

Bom, mas será que tornar Kony famoso é o suficiente? 

Alguns afirmam que não. Dentre eles, parte da população que desaprovou o vídeo por ele não ter sido capaz de enfatizar alguns dos mais recentes e importantes problemas do país. Por exemplo, desde 2006 que Kony não se encontra mais em Uganda e a LRA migra entre o Sudão, Sudão do Sul, Congo e outros países da região. Então empreender esforços para capturá-lo seria tão importante quanto atentar para outros problemas mais essenciais do país, como o altíssimo nível de corrupção e as violações de direitos humanos empreendidas pelo próprio governo de Yoweri Museveni (que já caminha para seu 26º ano)? Será que empreendimentos militares seriam interessantes ou causariam as mesmas discussões que existem hoje a respeito da Síria? 

É tão difícil ditar o melhor caminho, quanto é fácil simplesmente atribuir juízo de valor às ações da “Invisible Children”. Como na história do rei Midas, ele precisou começar tocar as coisas para perceber as reais dificuldades de viver daquela forma. E com o campo da internet e das ONGs talvez funcione da mesma forma. Pelas críticas e diálogo, o novo Midas possa estar encontrando a sua água, aquilo que trará novos caminhos para ação e revelará os problemas dos anteriores.

[Para alguns artigos interessantes sobre o tema clique aqui, aqui]


Categorias: Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Polêmica


1 comments
Teilor Soares
Teilor Soares

Também não podemos esquecer das teorias conspiratórias que afirmam que a descoberta de novas jazidas de petróleo em Uganda estariam motivando "alguém" a chamar atenção para o país de forma a validar uma intervenção militar. Espero realmente que essa situação traga algo de bom para Uganda.