O Timor Leste é um sucesso?

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Felizmente podemos dizer que sim. Qual seria a razão?

Mais um dos lugares esquecidos que aparecem de vez em quando, é considerado por muitos o caso de maior (senão o único) de sucesso de uma intervenção da ONU. Antiga colônia portuguesa, foi dominado pela Indonésia até 1999 quando lutou por sua independência e a conseguiu, porém o país restante estava praticamente desprovido da infraestrutura governamental e até mesmo do conhecimento operacional necessário para a gestão de um país.

Bem resumidamente, a ONU  sob a liderança do grande Sérgio Vieira de Melo (e de quem o seguiu) foi capaz de estabelecer processos mínimos de governança e construir a infra-estrutura necessária para que um dia o Timor possa andar com as próprias pernas e parar de depender da ajuda internacional. Mesmo após uma guerra civil fazer o país ter que recomeçar tudo mais uma vez, a missão continua com resultados expressivos, além de uma política de transição e gestão do conhecimento visando a saída da ONU.

Claro que ocorreram vários problemas e erros por parte das Nações Unidas (como não poderia deixar de ser…) mas pode-se dizer que o saldo é positivo. Mas porque o Timor deu certo se outros deram tão errado? Apresentarei alguns pontos, quem quiser contribuir com comentários está mais do que convidado!

Kosovo está na área vital para a produção energética europeia. O Haiti é assolado por desastres naturais, presença de tráfico de drogas, que é um dos crimes que o mundo não quer realmente combater. O Tibet – está dentro da China. Chade e Sudão ainda tem problemas étnicos, culturais, religiosos e políticos entre eles, minando qualquer grande sucesso das ações internacionais. Já o Timor Leste está na ponta da Indonésia, um dos quintais do “Ocidente”. Não tem expressivas jazidas minerais como o Oriente Médio muito menos é berço das grandes religiões mundiais. Ou seja, aos olhos de quem possui o poder, o Timor Leste pouco importa.

Em função da sua pequena importância estratégica, a ganância internacional não fincou lá suas garras tão fortemente, permitindo que aqueles que desejavam consertar a triste situação do país pudessem trabalhar da melhor forma possível. Além disso, as missões da ONU no Timor tinham e tem como característica a escuta atenciosa das demandas locais: se no Iraque os EUA enfiaram goela abaixo uma ideia de “democracia”, o Timor sempre foi consultado e suas particularidades levadas em questão. Contudo, isso não vem da burocracia estrita e clássica da ONU, mas sim das pessoas que lá trabalham. Para comprovar isso, ao invés de ter que exclusivamente garantir a segurança nacional, a UNMIT (atual missão da ONU no Timor Leste) possui como foco a estabilização política e a construção de estruturas governamentais capazes de gerir o país quando a ONU sair.

É esperançoso ver que mesmo após a guerra civil e as tentativas de assassinato, o Timor Leste continua sua longa e árdua caminhada rumo ao desenvolvimento e está cada vez mais próximo de uma – relativa – independência dos organismos internacionais. O triste é perceber que isso só é possível em função de sua pouca relevância…

PS: Gostaria de agradecer ao Diogo Souto Maior pela apresentação e conversa que inspirou esse post.


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais


3 comments
Ivan
Ivan

Mário, realmente, é uma pena o Brasil não agir mais. Um lugar que tem uma vontade incrível de superar seus problemas, e o Brasil não se insere quanto poderia...E Edgar, obrigado pelo link, bem bacana!

Mário Machado
Mário Machado

A maior honra da minha vida até hoje foi ter podido participar de uma mesa com a assombrosamente grande figura de um homem de porte simples do Bispo de Dili quando esse recebeu o título de Doutor Honoris causa na UCB. Tenho a vaidade adicional de saber que vários amigos meus lá serviram. O assunto me parece mais presente entre os portugueses do que entre nós. De certo o Palácio das Necessidades se envolveu mais com a questão que o Itamaraty - pelo menos no período de ocupação da Indonésia. Abs,