O tal nacionalismo

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vijnationalism

Ano de Copa, e pelas particularidades da organização desse ano, temos tudo para que o mundial de 2014 seja conturbado fora de campo, com protestos e até os mais exaltados que clamam para que não haja torneio. Razões e motivações à parte, um ponto interessante que vai aparecer em qualquer discussão, de redes sociais a barzinhos, é o tal do nacionalismo. Quem defende os protestos vai argumentar que ser verdadeiramente nacionalista nesse momento é lutar pelos direitos, contra a corrupção, custe o que custar, pelo bem do Brasil. Quem argumenta do lado oposto vai dizer que, de um modo mais tradicional, ser contra a Copa vai causar estragos econômicos (mais do que já houve) e arruinar a imagem do país. E aqueles mais despreocupados vão ligar esse problema mais ao sentimento de pertença ao grupo, com nacionalismo se igualando a torcer pela seleção e voltar pro trabalho na segunda-feira.

Todos esses pontos de vista (apesar de remontar também ao patriotismo, que é uma coisa um pouco diferente) mostram um problema importante do mundo atual, que é a noção de nacionalismo e identidade. Como tal, é intersubjetivo – o que se entende como nacionalismo é um conceito construído, lá no século XIX, e hoje perde um pouco de sentido em alguns casos dependendo de como cada grupo entende o problema. É só ver a crise da Crimeia – são ucranianos no papel, na lei, mas em termos de sentimento nacional estão mais apegados ao lado da etnia russa. Com isso, os crimeanos abrem mão da nacionalidade ucraniana (é um pouco mais complicado, já que alguns podem optar por continuarem ucranianos, mas vou me dar ao luxo de generalizar um pouco essa explicação) para se tornaram russos. Se fosse realmente um conceito tão fundamental, as pessoas não trocariam tão facilmente de nacionalidade, o que demonstra brevemente que o peso dessa ideia depende muito de cada caso.

Existem até mesmo constituições nacionais que endossam esse caráter de pertencimento ao grupo, mas quem pode impedir o indivíduo de não querer ser parte disso? Um exemplo vem da notícia pitoresca das últimas semanas de que o governo britânico está promovendo uma campanha (com apoio da Scotland Yard e grupos de direitos humanos) pedindo que esposas e irmãs de possíveis ativistas islâmicos denunciem o fato para que o governo impeça que saiam do país e se juntem ao combate na guerra civil Síria. Existe uma grande fonte de ironia em tudo isso – desde o começo, países ocidentais vêm apoiando a oposição síria, e parte dela são grupos radicais, muitos ligados a extremistas islâmicos… e antiocidentais. E boa parte de seus combatentes são pessoas convertidas ou nascidas em países como a França e o Reino Unido. Por mais que tenham a nacionalidade de países europeus, a identidade religiosa fala mais alto, ao ponto de abandonarem tudo para se juntarem a uma luta de extrema letalidade e potencialmente suicida.

Resumo da ópera: pensar em nacionalismo hoje depende muito da conveniência de quem discute. Pode ser um elemento de legitimação ou garantia do status quo, bem como para a derrubada do mesmo. Pode ser uma ideia aproveitada para manipular contingentes populacionais. E pode não ter absolutamente peso ou valor nenhum. Pois o nacionalismo é apenas um aspecto da identidade, seja coletiva ou individual, e no mundo de hoje tem muito mais concorrência para determinar qual seja o valor fundamental para cada indivíduo.


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