O sonho europeu?

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Não é novidade dizer que a Europa construiu sua unidade sob a diferença. Em outras palavras, é possível se encontrar outras “Europa’s” na própria Europa. E isso é produto de uma longa construção histórica – partindo desde a concepção grega sobre o continente, passando pelo Império Carolíngio, feudalismo, expansão ultramarina, colonialismo e neocolonialismo, até chegar à Guerra Fria –, cujo ápice se dá com a criação da União Europeia. Após a crise de 2008 e seus desdobramentos, veio a inevitável questão: o sonho europeu está morto?

O mosaico europeu é bastante complexo. O que tem a ver Letônia e Lituânia com Inglaterra ou Alemanha? Obviamente, logo de cara, podemos dizer: “o sentimento de pertencer a Europa”. Isso soa bonito, majestoso. Mas o que os dois primeiros países queriam era se afastar de vez da Rússia, esquecer que um dia foram parte da União Soviética. Eles queriam ser verdadeiros europeus!

Tem gente que até falou que a Europa é a Europa Ocidental, só que vai até os montes Pirineus. Isso significa que Grécia, Portugal e Espanha não pertencem ao continente. Coincidentemente, são os países que tem causado dor de cabeça para os líderes europeus. É pacote de ajuda econômica atrás de pacote de ajuda econômica, é medida para conter isso ou fazer aquilo. Esses países, economicamente mais frágeis, quando afetados pela crise, foram obrigados a elevar a política fiscal, aumentando os gastos públicos, de maneira a impulsionar a atividade econômica. Problema: endividamento. Consequência: desemprego, protestos, queda de governos…

Agora, ninguém consegue pagar nada. A própria Grécia precisa ainda de quase 60 bilhões de euro. E se não receber essa ajuda, pensa em abandonar o euro. O desemprego na Espanha – que, por enquanto, não quebrou – já supera 20%. Paradoxalmente, os países europeus mais endividados nunca dependeram tanto da Europa, e nunca a temeram tanto. Qual o melhor caminho a percorrer? “Se eu não for europeu, eu serei o quê? Se eu for europeu, eu serei por quê?”

Mesmo assim, parece que o pessoal não desistiu da ideia de Europa. Vide, por exemplo, a Islândia, com os problemas da livre circulação, aspirar à União Europeia num momento difícil para a própria organização. Vamos ainda nos perguntar por um bom tempo se o que está acontecendo hoje prenuncia o fracasso do projeto de integração europeia ou se, ao contrário, pode vir a reforçá-lo. A mesma diferença que conduziu à união pode levar à desagregação.


Categorias: Economia, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


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