O “sim” da discórdia?

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Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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