O retrato da intolerância

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Muitos devem estar pensando que falarei da onda de atentados e protestos no Oriente Médio e no norte da África em decorrência do vídeo “Innocence of Muslins” feito pelo “egípcio-norte-americano” Basseley Nakoula (foto) no qual ele satiriza a figura de Maomé. Minha resposta é afirmativa: sim! Mas quando digo retrato da intolerância, asseguro ser uma postura adotada pela própria cultura ocidental em relação, neste caso, à religião islâmica e não o contrário. 

E esta questão vem de longa data, não começou semana passada. Ainda em 2005, o jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” publicou uma seção de cartoons depredando a figura do profeta. Causando uma série de reviravoltas, as caricaturas se espalharam por jornais europeus, as embaixadas dinamarquesa e norueguesa em Damasco foram incendiadas, jovens fizeram protestos para que seus países parassem de utilizar este tipo de veiculação na mídia e por aí vai. Passado cerca de seis meses, o periódico pediu desculpas publicamente e tudo parecia estar resolvido. Até agora… 

Daí me vem um cara e faz um vídeo, o que, a meu ver, é mais impactante que qualquer caricatura/desenho, sobre esta mesma questão. E a própria mídia vem com aquele discurso de que os islâmicos são os radicais, os islâmicos são os que não respeitam a liberdade de imprensa…Por favor, não sejamos hipócritas. Veiculam somente a morte do embaixador dos EUA na Líbia, a onda de protestos nas embaixadas norte-americanas no Irã e no Paquistão e a proteção militar feita pelo governo francês em sua embaixada em Beirute. E por que ninguém fala do imenso erro em fazer um vídeo desses? 

O que parece não entrar na cabeça do dito “pensamento ocidental” é como se dá a estrutura social naquelas regiões em decorrência do próprio Islamismo. Os muçulmanos têm a política, economia, sociedade, jurisdição e código penal baseados exclusivamente no Alcorão, o livro sagrado do Islã. Quando acontece um episódio envolvendo caricaturas e/ou vídeos colocando em xeque a ‘veracidade’ de Maomé, para eles, é a mesma coisa que desmerecer toda uma civilização, toda relação social e religiosa que os conectam. Em sentido figurado, quem joga a bomba é a política externa da Dinamarca, dos EUA e assim por diante. E ela, literalmente, explode! 

Ontem, um jornal francês voltou a fazer a mesma política: publicar caricaturas de Maomé. Tudo bem que o discurso reside na velha questão da liberdade de imprensa e na tentativa de se colocar o Islamismo no rol do conservadorismo extremo religioso. O governo da França foi contra e está preocupado com suas embaixadas no Oriente Médio, parecendo que tudo isto virou um efeito “bola de neve”. Cenas para um próximo capítulo de algo que, com toda certeza, poderia ser evitado. 

Alguém já viu alguma caricatura ou algum vídeo feito pelos muçulmanos para satirizarem as religiões ocidentais? Se sim, me mandem, por favor. Porque, até agora, nós mesmos somos os mais intolerantes.


Categorias: Conflitos, Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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