O retrato da indolência

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Fonte: New York Times


Ou negligência, se preferirem. Há tempos que o conflito na Síria vem levantando novos debates a respeito da morte incansável de milhares de civis. Muitos são os problemas apontados: uso excessivo de força por parte do governo de Al-Assad, falta de comprometimento das grandes potências, indiferença por parte da comunidade internacional, violação de direitos humanos e de tratados internacionais. Existem, ainda, indícios sobre o uso discriminado de armas químicas, conforme já apontei em outro texto aqui na Página Internacional. 

Sobre esse último ponto, um grande mistério vem rondando os noticiários esta semana. Em um vídeo divulgado pelo jornal “The New York Times” em matéria intitulada “Images of Death in Syria, but No Proof of Chemical Attack”, são vistos centenas de civis (crianças e adultos) sendo atendidas por conta de um suposto ataque químico perto da cidade de Damasco. Entretanto, as pessoas que auxiliam nos atendimentos não usam nenhum tipo de proteção. O ministro sírio al-Zu’bi disse que as imagens foram planejadas… 

Faltam provas, mas nem tanto. Sabe-se que o conflito interno na Síria já alcançou patamares inimaginados anteriormente. Obviamente que as mortes são as piores consequências, só que o principal problema é saber como os sírios reagirão a essa maré de má sorte. Falta o básico, falta qualidade de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse que existe cerca de um milhão de crianças refugiadas por causa dos combates. E isso tende a aumentar. 

Por falar em ONU, a organização vem mostrando sua fraqueza. Sempre fui uma pessoa que tem a seguinte opinião sobre os capacetes azuis: “Ruim com eles, pior sem eles”. Suas ações são louváveis em inúmeros eventos históricos e sua voz no cenário internacional é vital. Mas não podemos deixar de notar que sua presença na Síria deixa a desejar. Somente agora que a ONU pediu autorização ao governo sírio para investigar os ataques com armas químicas. 

Vai e vai rápido! Ban Ki-moon é uma excelente figura e conquistou seu espaço no cargo máximo. Tem grandes problemas nas mãos e um deles é a Síria. Não podemos culpa-lo por tudo. Boa porcentagem dessa “indolência” no país é decorrente da falta de vontade política das grandes potências. A França propôs o uso da força para combater os ataques químicos, Alemanha e Estados Unidos ficam com o rabo entre as pernas e passam a bola para a Rússia, “acusada” de enviar armas para Al-Assad e por aí vai. 

E o que fará, agora, Mister Obama? Conforme atestado por matéria da BBC, há um ano o presidente disse que, caso fossem utilizadas armas químicas na Síria, os Estados Unidos recalculariam sua posição. Será que os norte-americanos vão para o front de guerra? Difícil, heim! Iraque e Afeganistão mandam lembranças. 

O estágio atual da Síria é insustentável e, se assim permanecer, não continuaremos a colocar a culpa somente em autoridades nacionais. Falta força política da ONU e, mais impactante ainda, força de vontade das grandes potências. Se “indolência” é um termo feio e pesado, podemos colocar como sinônimo a “preguiça”. Obama e companhia dormem no ponto.


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