O respeito e as diferenças

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Esse post é apenas uma reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e os ideais que nomeamos como igualitários e formadores de uma tolerância para vivermos em paz em um mundo plural. 

Coreia do Norte, Islamismo e a Direita americana. Marcos Feliciano ou Bolsonaro. Nas discussões tanto da política nacional como da internacional, figuras como essas sempre aparecem cumprindo os mais múltiplos papéis. Com suas diferenças, em uma característica se parecem: são os personagens que desafiam as ideias mais comuns do que se prega no ocidente como caminho para um futuro melhor.

No post de ontem do blog, fomos apresentados a ideia criada de um mundo sem conflitos, fabricado no que seria o último pós guerra da história. Verdade ou não essa ideia, ainda mais após as diversas batalhas e massacres que estiveram envolvidos os maiores defensores de que vivemos em um mundo de paz, como os EUA, sempre houveram os antagonistas à Ordem estabelecida, nos dois sentidos da palavra. Mas não somente no conflito entre países que se espalham ideias totalizadores, de inserção, e seus críticos. 

As diferenças culturais, por exemplo, atravessam todos os comportamentos do ser humano individual ou de grupos específicos, menores que a população de países e seus governos. Assim, se formam as mais diferentes práticas e visões de mundo, muitas delas apenas importantes para a maioria como fato curioso. Mas como sentimos as diferenças quando elas vão contra aqueles comportamentos que incontestavelmente vemos como ideais? A maior parte do tempo isso se passa desapercebido, até que nos deparamos com alguma ação que achamos bizarra. 

Nessa semana tivemos dois exemplos disso. O primeiro, um estupro coletivo na Índia contra uma turista. Tudo ainda observado pelo marido impotente.É certo que na Índia o estupro é considerado crime, mas se torna um fato bastante comum em um país extremamente dominado pela vontade dos homens. Um exemplo disso é também o costume bastante comum no país de casamentos arranjados entre homens e crianças de apenas oito anos de idade. Em outro momento da semana, soubemos do apedrejamento de um homossexual condenado na Somália,  legitimado pela lei do país como punição ao crime de se manter relações com o mesmo sexo. Diante disso, como deve se comportar a população ocidental esclarecida, as organizações e os governos defensores da igualdade e ditos contrários ao preconceito? 

Durante pelo menos a primeira metade do século XX, a ideia de que os valores deveriam ser impostos foi bastante comum. As críticas a intervenção, ao imperialismo e ao ocidentalismo fizeram com que surgisse um outro grupo: os defensores da autonomia de cada cultura. Até que ponto podemos influir em outra cultura? Para esse grupo em basicamente nada. Todas as mudanças de posturas e revoluções deveriam ser feitas pela própria população. Como se cada qual fosse dono do seu nariz.

O grande exemplo está entre as feministas do não envolvimento em relação aos outros. As mulheres lutam pelas mesmas bandeiras no mundo como se fossem um grupo só, ou cada grupo de mulheres, dependendo da cultura, da cor ou do extrato social devem lutar pelas suas próprias melhorias? Essa discussão chega ao seu limite de radicalismo ao vermos a questão da mulher em culturas que, por exemplo, exigem a cirurgia do clitóris na infância, para que a mulher não tenha nenhum prazer sexual durante a vida. Parte das feministas defenderam que um país assim deveria ser “liberto” de tais ideias. Outras, já enxergaram que parte do papel da mulher nessa sociedade é o de sofrer essa cirurgia, e que se retirassem delas essa marca, elas seriam completamente engolidas pela cultura, párias, seres sem identidade. Entretanto, Bolsonaro também não defendeu a continuação do papel tradicional da mulher como algo bom a sua felicidade? O que desejamos e defendemos para os nossos equivale aos outros?

Quando o que achamos errado ocorre em nossa sociedade ficamos indignados. Quando ocorre em outras, qual deve ser nossa reação? Até qual ponto podemos nos posicionar a realidade de outros povos? Em certo ponto, existe algum novo valor que deve ser universal?

Uma das premissas constantes do discurso do deputado federal Bolsonaro, o maior acusado de homofobia no Brasil, é a “liberdade de expressão” a que  estamos sujeitos como desculpas ao seu ódio. Portanto, devemos “engolir” tudo o que o congressista fala como aceitável pela sua premissa ou devemos e podemos contestar suas ideias e opiniões? Até qual ponto medimos uma liberdade pela outra? E assim, até qual ponto medimos que uma cultura diferente é apenas destoante, contrastante da nossa e que deve ser aceita pelo discurso de pluralidade, ou deve ser negada por não se enquadrar a valores que por tanto tempo lutamos?  Contudo, é muito mais fácil quando nos deparamos com informações sobre as meninas islâmicas aceitarem que naquela cultura aquelas são as suas crenças, e não criticar como sendo esses costumes uma afronta aos direitos das mulheres. O mesmo poderia ser pensado a respeito de Marcos Feliciano e os evangélicos conservadores que se colocam totalmente contra aos direitos homossexuais? Ou o ocidente perdeu a cultura, somos agora superiores próximos à sociedade perfeita, e devemos ser pacientes com as superstição e crenças de massa? 

Como expectadores nos tornamos impotentes e prudentes diante de um fato desses, e chegamos a admitir que esse costume das mulheres islâmicas é um habito cultural, o que seria impensável se essa mesma violação dos direitos de uma mulher acontecesse nas nossas fronteiras culturais. O que esquecemos é que até pouco tempo atrás tínhamos costumes que hoje consideramos repugnantes. A discussão entre a existência de valores universais para esses pontos é um posicionamento que deve recair em nossa geração, e seremos nós que teremos que tomar alguma posição, quanto a aceitá-las ou negá-las totalmente. Tanto no discurso da câmara, a pensamentos de uma religião ou as práticas de outros povos. Lembrando que essa discussão não tem significado de intervenção ou de contestação de uma cultura inteira, mas sim das ideias que defendem cada uma dessas, isoladamente. Façamos uma reflexão!


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