O rei se cala

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Nesses últimos anos tivemos a chance de ver eventos bastante incomuns no cenário internacional, como um Papa deixando seu posto. Nesta semana, há quatro dias, vimos algo que parece coisa de livro de história, mas em pleno século XXI tivemos um rei abdicando em favor de seu filho, com a renúncia do rei Juan Carlos da Espanha.

Essa é uma imagem recorrente nos tempos pré Idade Contemporânea, quando guerras e brigas por sucessão dinástica eram comuns na Europa. Com a perda progressiva de poder das monarquias com os processos revolucionários e a estabilização da política europeia em modelos monárquicos parlamentaristas, no pós-guerra as famílias reais se tornam praticamente figuras decorativas, de alguma importância política, mas só. Por um lado, isso rende uma certa estabilidade, já que os soberanos acabam tendo uma vida à parte da política “dura” e não precisam se preocupar com repreensão pública a não ser que pisem feio na bola (e mesmo assim ainda temos figuras pitorescas como o Duque de Edimburgo Philip da Inglaterra e suas dezenas de citações infelizes).

O caso da Espanha, porém, tem um fator de peso – sendo um país assolado por sectarismo, a monarquia tem bem mais importância para a integridade do país. Na verdade, movimentos como o dos separatistas bascos não reconhecem o governo de Madri, e sim a Coroa. Por isso causa preocupação essa abdicação, pois mostra como a crise está afetando de modo cada vez mais profundo o país ibérico. A monarquia, antes uma das instituições mais respeitadas da Espanha, perdeu prestígio nos últimos anos por consequência direta da crise econômica. O rei Juan Carlos, muito famoso (e até querido) por essas bandas por ter mandado o finado Chavez se calar não goza mais de tanto carinho em seu próprio país, e não sem razão. Fausto e gastos despreocupados são traço de monarquias desde sempre, mas em um dos países mais endividados da Europa, as gastanças do rei, sua filha e genro escandalizaram a opinião pública ao ponto de ser necessária sua saída de cena. Não se pode deixar de associar essa medida extrema à saúde frágil do monarca (na verdade, a justificativa “oficial”), mas isso apenas reforça a tese de uma fragilidade ante a pressão e críticas.

Ao príncipe de Astúrias, agora rei, Felipe, sobre uma tarefa árdua – ser o representante da moral da nação no momento mais delicado de sua história recente, ao mesmo tempo em que deve articular habilmente, como seu pai, o complexo e instável xadrez da política doméstica espanhola.


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