O que fazer?

Por

Bem, prosseguimos nossa análise das revoltas populares que estremecem o Oriente Médio e o norte da África. Parece que a bola da vez é a Líbia, do folclórico e nada sutil ditador Muamar Kadafi (aquele que governa há uns 40 anos e rasgou uma carta da ONU na própria Assembleia Geral da instituição) e que bem demonstra como devem se desenrolar os fatos nos demais países envoltos nesse turbilhão.

A cobertura dos fatos é ampla e assustadora. Como todos sabem, os protestos por toda a região não tardaram após o sucesso das revoltas no Egito e Tunísia. Contudo, a esperança dessas novidades enfrenta a dureza da realidade: infelizmente, os casos “exitosos” parecem ter dependido de uma situação muito específica, como a insatisfação dos militares com Mubarak. No caso da Líbia, o exército está nas mãos de Kadafi, e reage impiedosamente, com mais de 230 mortos. As coisas estão em um nível tão grave que muitos diplomatas líbios, escandalizados com a repressão violenta, deixaram seus cargos como forma de protesto, enquanto o caos impera, forças de segurança pública somem e a guerra civil é iminente.

Como muitos regimes autoritários ao redor, parece que infelizmente a vontade popular pode continuar sufocada pela força. No Iêmen, por exemplo, apesar de mesmo os clérigos muçulmanos exortarem aos militares que não usem a força, o presidente Ali Abdala Saleh deixou bem claro que se o povo quer mudanças, que o faça nas urnas e considera inadmissível a abdicação, e a polícia não poupa esforços para reprimir de modo cada vez mais contundente os protestos. No Bahrein, a demanda pelo fim da monarquia, disputa interna por melhores condições, atritos entre classes e revolta contra privilégios já causou 7 mortes e acabou adiando até mesmo a corrida de Formula 1 no país para o fim do ano (se for ocorrer). Não é impossível, logo, imaginar que esse pareça ser o destino da maioria dos países da região que estão sob regimes autoritários – ou poucas mudanças serão implementadas, como está planejado na Jordânia, mantendo-se o status quo, ou sem mudança alguma, com a manutenção do regime pela força.

Por fim, e para tornar o quadro mais sombrio, mesmo o Egito e a Tunísia enfrentam problemas após suas “revoluções”. Na Tunísia persiste o temor da permanência de aliados de Ben Ali no governo (o que seria mais do mesmo), enquanto no Egito ainda há protestos e a economia segue em queda livre. É muito cedo para taxar de “fracassos” esses casos, e a contínua esperança de um desenvolvimento democrático na região animaria até mesmo o processo de negociação de paz entre israelenses e palestinos. Mas restam estes desafios aos que ultrapassaram a barreira dos ditadores, e um longo caminho aos que mal começaram a empreitada. O que fazer?


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


0 comments