O Primo Chinês

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E inicia-se a contagem regressiva para uma das mais importantes viagens internacionais do governo Dilma, de fato a primeira de grande peso estratégico para o país: sua visita à China. A apenas dois dias da chegada de nossa presidente em território chinês, começa-se a pensar por que vias anda essa relação entre os dois países.

Os números mentem muito pouco. A importância da China para o Brasil é muito grande. Atualmente, com um comércio bilateral rendendo, com base nos resultados de 2010, mais de 54 bilhões e com essa balança pesando para o Brasil com aproximadamente uns 5,4 bilhões, o país já é o primeiro parceiro comercial brasileiro. Mas seria essa parceria tão profícua quanto parece?

O que é isso que os números não dizem? As estatísticas absolutas não falam algo que Eça de Queiróz captura muito bem em sua obra, o Primo Basílio. Luísa, uma jovem fragilizada que na ausência de Jorge, seu marido, logo se envolve em aventuras românticas com seu primo recém chegado na cidade, Basílio, depositando no Paraíso, (o lugar onde se encontravam) a maior parte de suas expectativas. Em curto prazo, a jovem sentia-se muito feliz e via reacender uma nova paixão. As consequências de longo prazo que não eram bem consideradas…

E Queiróz não poderia dizer melhor sobre essa relação entre Brasil e China. “O paraíso” do comércio bilateral entre os dois países tem garantido ao governo brasileiro uma elevada rentabilidade. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que podemos cometer um erro parecido com o de Luísa.

Isso porque, apesar dos números, o Brasil exporta preponderantemente produtos agrícolas e importa dos chineses um volume muito grande de produtos manufaturados. Para os primeiros, o preço não cresce muito, enquanto para os segundos em razão da inovação tecnológica, os preços tendem a aumentar bem mais. Outra complicação é o fato de muitas indústrias brasileiras instaladas na China (como a Embraer) não conseguirem produzir tanto quanto desejariam precipuamente por restrições do governo local (apesar de indicativos de tentativas de amenizar a situação). Os números escondem a contribuição dessas relações para um tímido, porém possível, processo de desinstalação de indústrias alguns setores (para mais clique aqui e aqui), já que compensaria mais importar do que produzir.

Uma situação delicada e muito cara aos projetos de crescimento do Brasil. Ao que tudo indica, o governo está ciente disso e dentre os objetivos de Dilma e sua comitiva de quase 300 empresários, a tentativa de diversificação desse comércio e melhoria de suas condições são relevantes temas a serem tratados no encontro. Mesmo assim, é importante manter os olhos abertos para as relações com o “Primo Chinês” para que o longo prazo não nos cause embaraços semelhantes ao de Luísa, enquanto nosso Basílio continuará em sua vida de ávido crescimento e comércio sem grandes preocupações…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia


3 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Um professor meu disse certa vez: "Este negócio de ficar buscando relações com a China é muito perigoso, afinal, os chineses tem mais de 5.000 anos de malandragem."Boa comparação!Abraços

Raphael Lima
Raphael Lima

Oi Bia,Obrigado pelos elogios! Esse é um tema que muitas vezes esquecemos de tratar quando falamos do comércio coma China. Uma possível nova forma de deterioração dos termos de troca entre o Brasil e seus principais parceiros comerciais que é muito relevante ser tratada. Um beijo,

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Adorei a comparação com o livro! Acho que ilustrou de forma muito perspicaz a situação! O "Primo chinês" deve ser realmente tratado com cautela... parabéns pelo post!Beijos!