O poder do discurso

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Ontem começou a Assembleia Geral das Nações Unidas. A data não é ao acaso – as reuniões ordinárias sempre começam em setembro, todo ano. Antes da reunião em si, os países podem fazer um discurso inicial, e aqui tem existe outra tradição interessante – a de que o Brasil sempre é o primeiro a fazê-lo. 

Esses discursos, mais do que apresentarem a “posição” do país, são um momento importante e simbólico. Quem não se lembra de Kadafi rasgando a carta da ONU? Ou Chavez falando do cheiro de enxofre após o discurso do Bush filho? Além dos momentos mais pitorescos, é claro que outros são mais impactantes, inclusive o que começou essa tradição de o Brasil inaugurar as sessões: logo na segunda reunião da AG (que foi extraordinária), em 1947, aquela que definiu a formação do Estado de Israel, o representante brasileiro Osvaldo Aranha foi um dos responsáveis pela defesa (e sucesso) da proposta, e como o primeiro orador inaugurou essa tradição. 

Recentemente, o Brasil vem sendo representado pelo seu chefe de Estado, e o discurso acaba tendo uma importância relativa para entender aspectos de sua política externa. Lula por exemplo teve seu grande momento internacional quando trouxe o tema da pobreza para o debate na AG. Mesmo Dilma já tinha feito algo parecido quando trouxe o debate da “Responsabilidade ao Proteger”, que estava em voga na época por causa da invasão da Líbia, e que hoje está meio esquecido, mas teria tudo para ser a bola da vez com a questão da Síria.

Com isso chegamos ao discurso de ontem. Dilma fez o que se esperava: reclamou da espionagem dos EUA, condenou isso como violação do Direito Internacional e propôs uma regulamentação para a atividade no “cyber espaço” para que não seja usado como arma de guerra. A discussão é polêmica, a rede é uma terra de ninguém, mas se temos convenções até para tornar o espaço sideral uma área sem conflitos, por que não? Não é despropositado, e se vai render alguma coisa em longo prazo, é difícil saber, mas o discurso tem um peso e entra pra história pessoal da presidente, além de ter tido um grande destaque na imprensa internacional. 

Mas talvez os discursos mais interessantes (e esperados) tenham sido dos EUA e do Irã. A perspectiva de uma negociação é bem plausível agora, já que o novo presidente, Hassan Rouhani, parece bem mais flexível que Ahmadinejad. O momento seria de cautela, mas há uma expectativa positiva. Por outro lado, o discurso dos EUA é mais pessimista, com um Obama abatido e com inimigos por todos os lados, e a imagem de um país indeciso quanto a seu papel de potência. As críticas recentes de Putin a essa “excepcionalidade” parecem coadunar com a “crise de identidade” dos EUA, que quer manter sua posição no mundo mas não sabe exatamente como.

O fundamental disso tudo é que os atores principais parecem não mudar. Lideranças pontuais ou novidades (como o egípcio Morsy, que no ano passado era a vedete da AG e hoje nem se sabe onde está preso) surgem todo ano, mas no fim das contas o peso maior recai sobre os países mais tradicionais. E o Brasil, bem ou mal, faz parte desse grupo.


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