O poder do além governo

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No atual processo democrático em diversos países, observamos um vai e vem de presidentes e primeiros-ministros no poder. O tempo passa, a sucessão continua, e o que fica é o legado desses líderes. E, assim, surgem muito mais perguntas do que respostas. E é olhando para essas dúvidas que os novos candidatos baseiam sua retórica de construir algo novo.

Mas o poder é algo interessante. Muitos deixam o poder e tentam continuar na construção de seu legado. Um exemplo interessante é pensarmos no número de casos de ex-presidentes e ex-grandes líderes escrevendo autobiografias e financiando filmes de sua própria imagem por aí. O filme “Lula, o filho do Brasil” e o livro “Minha Vida” de Bill Clinton são apenas alguns pequenos exemplos.

É assim que aqueles que saíram do poder continuam a exercer o poder. Um poder diferente, sem dúvida, todavia, ainda é poder, e muito bem é capaz de influenciar outros. O mais novo membro desse grupo é o queridinho do Iraque, o nosso Bush filho. Seu livro trata das decisões mais, digamos, decisivas de seu governo. Dos momentos mais cruciais. Uma biografia um pouco diferente. É impressionante como o presidente não só afirma que foram usadas técnicas de “interrogatório forte” contra suspeitos de terrorismo, como foram autorizadas por ele. Revelações como essa não chegam a ser surpreendentes, porque afinal, bem se sabe como essas investigações são conduzidas.

Quem assistiu filmes policiais brasileiros, como Tropa de Elite, bem sabe que há técnicas diversas de se fazer pessoas confessarem. Todavia, em se tratando de relações internacionais e de terroristas internacionais, e, adicionando à mistura uma dose de preconceito, é de se imaginar também o número de árabes e islâmicos que não passaram por esse tipo de método de interrogatório sem terem ligações íntimas com as redes internacionais de terror.

Bush filho ainda defendeu que a invasão do Iraque tornou o mundo mais seguro. E que, a não descoberta de armas de destruição em massa no país, gerou um “efeito nauseante”, ou seja, custou-lhe uma bela dor de barriga. Dor de barriga, não por não as ter encontrado, mas pelo efeito gerado na comunidade internacional dessa empreitada, aparentemente, sem objetivo muito claro ou não muito justificável, e pelo custo que isso teve aos EUA.

A tentativa de Bush de exercer um outro poder existe. E assim, busca um legado, de uma imagem que vem se erodindo no tempo. De apontar que agora, graças a todos esses eventos, o Tio Sam pode ter mais horas de descanso, e até mesmo apreciar um refrigerante tranquilamente. Porque agora o mundo é mais seguro.

Se essa imagem é difícil de engolir para muitos, para outros ela é muito forte. Enquanto pessoas se bestificam com o vazamento de informações sobre mortes de civis do Wikileaks, muitos aplaudem torturas a supostos terroristas nas cadeias no Iraque e Afeganistão. Esse poder indireto das tentativas de construção de legados é muito mais forte do que se pensa. E, no caso de Bush, expõe a contradição inerente na sociedade ao lidar com o terrorismo e questões de segurança nacional.


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