O pior cego…

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… é o que não quer ver, e no caso da ONU a coisa tá feia. A situação de repressão na Síria está atingindo níveis alarmantes, com mais de 60 mortes somente nesse fim de semana. Enquanto isso, os baluartes da democracia continuam a pressionar o Irã por conta de seu programa nucelar, com sanções econômicas e aqueles divertidos jogos de guerra no mar da Arábia.

São dois os problemas aqui. O primeiro é de ordem prática. Se dá muita importância ao Irã, mas quem está endurecendo as negociações são os próprios países ocidentais. Muita gente da região, inclusive de Israel, acha uma péssima ideia que haja um ataque militar ao Irã (o que parece se encaminhar cada vez mais, e isso numa semana crítica, com visita de inspetores da AIEA…). Ao mesmo tempo, uma bomba relógio que é essa crise na Síria (que afeta, em teoria, todos os países vizinhos e pode por muito mais a perder para Israel que o caso do Irã) vira um tema secundário de notas de telejornal.

Isso leva ao segundo problema – interesses. Quando falamos em atuação do Conselho de Segurança da ONU, nesses dois casos temos uma divisão de interesses nos cinco permanentes, com EUA, Reino Unido e França de um lado do ringue contra China e Rússia. No caso do Irã até que os dois últimos cederam um pouco e o Irã está meio que sem sua blindagem no Conselho. Mas, no caso da Síria, principalmente a Rússia defende com unhas e dentes que não haja a brecha para a possibilidade de intervenção, e vai vetar qualquer resolução nesse sentido. No discurso, a defesa do não-intervencionismo é muito bonita, mas na prática o que temos é um grande comprador de armamento e recursos energéticos sendo defendido pelo seu “patrono”. Nada mais pragmático, a não ser quando vemos que, do jeito que as coisas estão ruins, suspenderam hoje mesmo a missão de observadores da Liga Árabe (entendida como um último esforço de negociação pra acabar com os massacres), e moralmente parece inaceitável essa posição da Rússia.

Não é que a ONU não se pronuncie ou se posicione contra isso. O que escandaliza é ver como um interesse específico atravanca um processo todo, e como a organização fica de mãos atadas. Não é que eu esteja defendendo a intervenção (mesmo por que isso também tem seus interesses…), mas ao mesmo tempo a inação é uma coisa incômoda. Esse dilema entre o seguir as regras do jogo deixando o sangue jorrar ou derrubar a mesa e terminar com a catástrofe humanitária foi o mote de toda a discussão da intervenção na Líbia ano passado. E é claro que se a resposta fosse fácil não estaríamos discutindo isso até agora…


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