O peso dos imigrantes.

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Obama está re-eleito, e vamos ter bastante o que falar dele nos próximos 4 anos. O homem mais poderoso do mundo está cheio de problemas pra resolver – a maioria no campo interno, especialmente a cambaleante economia dos EUA que está à beira de um abismo fiscal (corte de gastos e elevação de impostos programada para o começo de 2013). Fora, o presidente que ganhou um Nobel da Paz sem fazer nada (e em cujo mandato mais se matou gente com drones violando espaço aéreo estrangeiro e todo tipo de direito internacional) tem que lidar com a crise na Síria (onde não pode fazer muita coisa mas tem muito a perder num eventual transbordamento) e as provocações usuais do Irã. Isso pra ficar no que mais dá notícia, por que existem temas menores que passam até despercebidos, e um deles afeta os dois lados da política norte-americana, podendo influenciar até mesmo nas próximas eleições, que é a questão da imigração.

Obama teve um apoio enorme dos hispânicos nas eleições. O que surpreende, por que não apenas fracassou em tocar a reforma das leis de imigração (promessa do primeiro mandato), como nunca na história desse país se deportou tanta gente – mais de um milhão de pessoas em 4 anos, com o recorde anual de quase 400 mil em 2011. Mas como malandro é malandro, em junho suspenderam as deportações para imigrantes que chegaram crianças e moraram pelo menos 5 anos ininterruptamente, o que anistiou quase 1 milhão de pessoas e deu no que deu semana passada. Agora os partidos dos EUA tentam negociar o avanço da reforma dessa legislação, e Obama está com a faca e o queijo na mão para dar um jeito na regularização dos quase 12 milhões de ilegais, na maioria hispânicos. 

Existem, na verdade, 3 fatores para que essa reforma seja viável agora. Primeiro, as reformas influenciam muito mais os ilegais que já estão nos EUA (e fazem parte da vida política de lá) – para os que vêm de fora, deve continuar a vida dura e a dificultação da entrada. Segundo, mesmo com as pressões no México, especialmente por causa da matança do narcotráfico, o número de imigrantes indo para os EUA tende a diminuir com a economia como está, e isso pode reduzir a tensão e pressões sobre os grupos que já estão no país. E terceiro, os partidos dividem congresso (maioria republicana) e senado (maioria democrata); Obama não vai chegar a lugar nenhum com oposição de uma das casas, e essa é uma chance interessante de orquestrar uma cooperação ou diálogo para depois entrar nos temas mais sensíveis. 

Ficou a lição: os partidos parecem ter compreendido que a questão da imigração não passa pela exclusão, e que ser anti-imigrante (como a ala radical dos Republicanos) causa muito dano eleitoral. Isso traz um pouco a questão de que o próprio país foi construído por imigrantes (indígenas à parte), e essa imagem de “herança migratória” parece estar ganhando força nessa discussão. Obama deve ficar atento a isso tudo e reavaliar o draconismo de suas políticas de imigração – boa parte dos republicanos que estão cotados para 2016 são jovens, libertários e em sintonia com o voto hispânico. E o resultado das políticas que estão sendo discutidas agora vai definir quem essa parcela enorme de potenciais eleitores vai apoiar.


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