O perigo mora ao lado?

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É fato que as relações internacionais contemporâneas não são idênticas às dos séculos passados. E os motivos são os mais variados: aumento do fluxo financeiro internacional, emergência de novos atores com poder de decisão, reformulação da centralidade política do Estado, inclusão de novos temas nas discussões internacionais (meio ambiente, cultura, direitos humanos, tecnologia, etc.), aproximação entre cada um de nós enquanto indivíduos com a política externa, dentre outros casos. Mas uma importante característica das chamadas política realista, geopolítica clássica ou até mesmo do tradicionalismo ainda aparece com uma importância ímpar para nossa área de estudos: estou falando das fronteiras físicas entre diferentes países e/ou regiões. 

Torna-se muito interessante observar esta questão. Vê-se, cada dia mais e mais, um debate dizendo que há um novo modelo de gestão fronteiriça e um novo olhar dos Estados para com a relação entre países vizinhos. É óbvio constatar uma mudança de paradigmas envolvendo as fronteiras. Fluxos migratórios, trocas comerciais, permeabilização das relações em virtude de acordos bilaterais ou blocos regionais, impacto direto nos atores locais (na maioria das vezes cidades ou estados federados) são realidades que não podem ser esquecidas. 

Entretanto, minha questão toca no tema do “até quando os ‘problemas’ ou embates causados por laços de fronteira não serão resolvidos?” ou melhor “será que isso tem solução?”. Veja, por exemplo, o caso das duas Coreias. Lá, realmente, o negócio ferve. Tem monitoramento, cerca elétrica, arame farpado e tudo mais. A Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC) é uma questão única, mas vital ao debate. Neste mesmo patamar, podemos citar a relação entre Israel e Palestina, um embate histórico para ver quem fica com determinado território e quem deve reconhecer a segunda como um verdadeiro Estado. 

Nem o pessoal lá do norte escapa. Por muito tempo a Europa Oriental foi considerada um “problema sem solução” para a União Europeia. Incluir ou não no processo de integração? Parece que isso já foi resolvido de maneira satisfatória, todavia, quando falamos da Turquia… E, claro, o exemplo crasso entre Estados Unidos e México não poderia deixar de ser mencionado aqui. Põe guarda, cerca e cachorro, mas o fluxo migratório continua. Vem diminuindo, mas continua com certa relevância. 

Por fim, supostamente, falemos de Brasil! A fronteira amazônica e a “Tríplice Fronteira” envolvendo Argentina e Paraguai são os casos emblemáticos. Até que ponto existe omissão do nosso país para com a Amazônia? Não sei, só sei que lá embaixo o problema está mais atual. Sem contar a omissão diplomática no episódio Itaipu, estão dizendo que há até ação terrorista por lá. De maneira realista, falam de contrabando, narcóticos, armas e coisas deste tipo passando diariamente pela fronteira tripla. 

A abordagem do presente texto reside no fato de pensarmos até que ponto as fronteiras físicas realmente perderam aquela visão realista de ser. Ou há o defensor e estadista afirmando que isto é uma questão estratégica somente para o poder central ou existe aquele confirmando os novos rumos das relações internacionais apontados no início do texto. Não estou falando de mocinhos e vilões, ninguém está certo ou errado, o que falta é uma maior articulação entre ambos os lados. Quanto mais atores envolvidos, mais frutífero fica o debate e há mais possibilidade de se chegar a resultados satisfatórios. É necessário o diálogo entre o Estado em si e até aquele cara que mora ao lado do “estrangeiro” e cruza a fronteira com apenas alguns passos.


Categorias: Polêmica, Política e Política Externa


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