O paradoxo do governo americano

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Que o poder americano é um paradoxo, o cientista político norte-americano, Joseph Nye, já escreveu, mas que o governo americano é um paradoxo, a atual presidência de Obama está escrevendo. O 44º presidente dos Estados Unidos se encontra num raso recipiente político, em que as fronteiras domésticas ainda não se imiscuíram com as internacionais, ou vice-versa. Um delicado jogo, uma insistente contradição.

Recentemente, uma pesquisa divulgada pelo Centro de Pesquisas Pew afirmou que 80% dos cidadãos norte-americanos não confiam no governo – o maior índice alcançado em 50 anos. Segundo esse levantamento, 22% confiam “praticamente sempre” ou “na maioria das vezes” no governo, 25% são favoráveis ao Congresso – menor índice em 25 anos – e 40% consideram a administração de Obama ótima ou boa. Ademais, o clima de frustração contra o governo alcança 56% da população, sendo maior do que o de raiva (21%).

A incerteza econômica, o ambiente político partidarizado, o descontentamento com o Congresso e políticos e a prolongada discussão sobre a reforma da saúde (assunto tratado pelo Álvaro aqui) explicam o resultado da pesquisa. Paradoxalmente, uma pesquisa global, encomendada pelo Serviço Mundial da BBC e conduzida pela GlobeScan/PIPA, indica melhoria da imagem dos Estados Unidos no mundo. O país é visto positivamente por 20 dos 28 países pesquisados, sendo que 46% dos entrevistados consideram que os norte-americanos têm exercido uma influência positiva no mundo, enquanto outros 34% acreditam que a influência é negativa.

Um ambiente interno de desconfiança e um externo, de confiança resguardada. Eis a atual situação dos Estados Unidos. E sob falta de credibilidade, Obama agora tenta aprovar a reforma do sistema financeiro, para mudar aquilo que levou à crise econômica atual. É preciso tomar novas medidas de regulamentação do mercado para impedir que o povo arque com o ônus de suas quebras. Para o colunista Clóvis Rossi, trava-se uma nova guerra: “Casa Branca vs. Wall Street”. Já o mundo, por sua vez, dá um voto de confiança à Obama, em seus esforços capitaneados na luta contra a proliferação nuclear e pela paz no Oriente Médio. Mas resguarda essa confiança enquanto prosseguem os Estados Unidos em sua empreitada contra o terrorismo, suas intervenções no Iraque e Afeganistão e sua saga contra o Irã.

O Irã, por sinal, foi considerado o país com a menor imagem positiva (15%) na pesquisa supramencionada. Todavia, não menos importante, Ahmadinejad fez uma declaração intrigante na semana passada: “Só há um lugar em que ele (Obama) poderia dizer: consegui uma mudança e mudei o contexto mundial. E esse lugar é o Irã.” Não é no Iraque, no Afeganistão e nem na Palestina, o elixir para a glória da política externa dos Estados Unidos seria o Irã. De certa forma, o argumento soa como verdadeiro na medida em que essa república islâmica coloca em xeque os maiores valores norte-americanos: paz e segurança internacionais, democracia e direitos humanos. A questão nuclear seria apenas o começo.

Enfim, neste raso recipiente político, os líqüidos doméstico e internacional ainda não se misturam. Pode ser que a desconfiança interna contagie o cenário mundial; em igual medida, é possível que a confiança externa reanime as expectativas dos norte-americanos com relação ao governo. Aquele que um dia foi escolhido como a esperança, ganhou o Nobel da Paz e se apresenta como o guardião da segurança, enfrenta um momento crucial, fruto do sucesso que também se converte em maldição: o paradoxo Obama. Situação emblemática e que persiste como via média e confusa.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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