O Paquistão e o caldeirão

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O Paquistão é um país que se encontra na moda no noticiário internacional, seja pelos atritos com a Índia, seja pelos shows pirotécnicos propiciados regularmente pelos radicais islâmicos, ou pelas relações tortuosas com os Estados Unidos. Vê-se que é um país com muitos problemas quando se pensa no âmbito externo, e isso apenas piora sob o escopo interno.

A primeira impressão que se tem é que, de certo modo, podemos falar em importação de problemas. Isso pois os radicais islâmicos do Talebã, oriundos do vizinho Afeganistão, têm acesso a áreas remotas do Paquistão, chegam controlar algumas regiões e angariam “simpatizantes”. Seja pela coerção, ou pela falta de perspectivas, são muitos os paquistaneses que se sacrificam pelo Islã em atentados no Afeganistão e no próprio país.

Ainda por cima, o Paquistão é um caldeirão étnico-religioso. A fragilidade do governo (como se vê no caso da atividade Talebã, que em seu fundamentalismo chegam a dinamitar escolas de educação para meninas sob o olhar atônito das forças de segurança) engendra o sectarismo e faz com que sejam corriqueiros atentados e crimes de natureza religiosa e étnica. Trata-se de um dos poucos países do mundo onde existe uma “lei de blasfêmias”, um instrumento concebido para, teoricamente, resguardar a cultura e a religião típicas, mas que acaba se tornando, em um Estado assolado por corrupção e por um sistema de direitos pouco efetivo, em um mecanismo de perseguição a minorias e supressão da legalidade, com acusações forjadas, julgamentos irregulares e até execuções sem anuência da justiça.

Um exemplo trágico e surreal do estado das coisas no Paquistão é um caso recente sobre uma menina cristã de 12 anos que foi morta pelo patrão, um advogado muçulmano de Lahore (aqui). Em “solidariedade” ao acusado, a associação de magistrados local se utiliza de meios relativamente sutis como literalmente barrar o acesso da família da vítima e de organizações de auxílio à corte, além de ameaçar de morte quaisquer advogados que se proponham a defender a vítima, com a nobre finalidade de atravancar o devido processo legal.

O choque do fato não se deve à religião da criança em si, mas por exemplificar como uma liberdade fundamental do ser humano (a de escolher seu credo) é violada e amparada por um sistema legal e cambaleante, regido por um governo frágil e que pode ser direcionado de maneira ilegítima para o caos e a violação de direitos humanos. Persiste esse caos de valores, persiste a fraqueza do Estado e o conseqüente sectarismo. Se o Paquistão enfrenta problemas fora, deve se cuidar para não implodir com o que vem de dentro.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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