O orçamento da discórida

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O debate acerca do próximo orçamento da União Europeia foi um campo de batalha. De lados opostos, posicionaram-se os pró-austeridade e os defensores de políticas distintas para enfrentar o atual cenário econômico. Em novembro, não houve acordo. Em fevereiro, por sua vez, a inclinação para austeridade venceu.  

Enquanto Reino Unido e Alemanha pregam maior responsabilidade fiscal, visando diminuir o déficit; França, Itália e Espanha parecem mais preocupadas com o crescimento econômico e a geração de empregos. Não que os pró-austeridade não queiram uma economia próspera, pelo contrário. Existe, em realidade, visões opostas quanto ao caminho para alcançá-la.  

O orçamento europeu, discutido a cada sete anos, representa 1% da produção econômica dos países-membros e 2% do total de seus gastos públicos totais. A despeito da aparência de pouca relevância, grande parte do montante visa programas de bem-estar social, pensões e saúde, de acordo com a Comissão Europeia. Por isto, sua importância. O embate terminou com a definição de €959,99 bilhões como teto do orçamento, menos do que os €960 bilhões que o presidente francês havia dito ser seu limite.

   

Eis que, após esta longa batalha, surge o Parlamento Europeu para fomentar mais discórdias. Foram 506 votos contrários ao acordo orçamentário. Os 161 votos a favor da proposta dão mostras da opinião majoritária. Para eles, a preocupação essencial é estabelecer a flexibilidade dos gastos previstos não realizados para outras prioridades; assim como aprovar uma reunião para rever o orçamento após as eleições de 2014, caso ocorra uma recuperação econômica até lá.  

No meio de tudo isto, há ainda questões políticas mal resolvidas. David Cameron puxou a fila dos que ameaçam abandonar o barco. A líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen, também defende um referendo sobre a continuidade de seu país na União. Isto sem contar os eurocéticos italianos. Afinal, o candidato pró-austeridade, Mario Monti, sofreu uma derrota retumbante nas eleições da Itália.  

Para Cameron, sem as amarras da União Europeia, seu país estaria livre para praticar suas políticas de austeridade. Sobraria, para questões internas, o tempo que ele gasta tentando outros países a segui-lo. Na Alemanha, a agenda 2010, do então primeiro-ministro Schroder, serve de inspiração para os possíveis novos caminhos. Naquela época, as suas reformas sociais e do mercado de trabalho resultaram em derrota eleitoral. De fato, a austeridade é um capital eleitoral difícil de carregar.

Já o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008, não entende quais são os sucessos das políticas de austeridade. Para ele, o foco deveria ser a continuidade do combate ao desemprego e a reanimação da economia. O debate seguirá, mas o ímpeto de maior controle de gastos deve seguir entre os líderes europeus. Restará, porém, driblar a oposição do Parlamento Europeu. O mais difícil parecia ter sido logrado. Parecia.

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Categorias: Economia, Europa


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