O novo "Mundo Novo"

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Períodos de crises – sejam elas políticas, sociais ou econômicas – sempre promovem intensas mudanças na ordem regional e mundial. Podemos citar alguns exemplos, como a Revolução Francesa, a Depressão Econômica de 1929 e a ascensão de regimes democráticos na América Latina. Historicamente, as mais relevantes transformações mundiais partiram do denominado “Velho Mundo”, compreendendo posteriormente as Américas. A partir do século XX, Estados Unidos e Canadá atingiram níveis de desenvolvimento similares, ou até mesmo superiores, aos das antigas maiores potências européias, deixando para trás os latino-americanos.

A recente crise econômica, que teve seu epicentro nos Estados Unidos mas que pronto afetou todos os países em decorrência aos abusos das instituições financeiras, teve grandes conseqüências nos países em desenvolvimento, categoria sob a qual se subscrevem os países latino-americanos. Estes países, em maioria exportadora de matérias-primas ou produtos de baixo valor agregado, tiveram seu ritmo de crescimento abruptamente interrompido, com conseqüência da diminuição da demanda por seus produtos. Em defesa de suas econômicas, diversos governos – como o brasileiro – adotaram medidas de contenção, incluindo corte de gastos públicos (no caso brasileiro diminuição do ritmo de crescimento dos investimentos) e nas taxas de juros.  

Agora, em julho de 2010, quase dois anos depois da quebra do banco norte-americano Lehmann Brothers e marco inicial desta crise, o Banco Mundial divulga relatório em que prevê o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial entre 2.9% e 3.3% para os próximos dois anos. Ainda segundo a organização, os países desenvolvidos crescerão numa taxa de até 2.3% em 2010-2011, não suficiente para recuperar a retração de 3.3% referente a 2009. A questão fundamental é que são os países em desenvolvimento que puxam o carro do crescimento econômico dos próximos anos, abrindo caminho conjuntamente para botar um fim a crise iniciada em 2008.  

Neste contexto, a América Latina ganha relevo, com previsão de crescimento de 4.8%, finanças públicas sólidas e sem crise fiscal ou bancária. O Fundo Monetário Internacional (FMI) destaca que a região estava preparada para receber um choque econômico externo, com instituições fundamentadas e com capacidade para tomar ações defensivas. Os antigos primos-pobres do “Novo Mundo” mostram sua nova cara, diferente de quando enfrentavam endividamento externo, estagnação econômica, desequilíbrios fiscais e monetários, inflação, desemprego, entre outros indicadores que davam conta da grave situação na região.  

De forma paradoxal, o “Velho Mundo” sofre com fenômenos similares aos antigos estereótipos latino-americanos. Fenômenos estes que ocasionaram forte instabilidade política em diversos países. Este ano, podemos ver, por exemplo, o primeiro ministro espanhol Zapatero, propor ao Congresso Espanhol o congelamento de benefícios aos trabalhadores e o aumento de impostos e a contenção dos gastos públicos, exatamente as medidas de austeridade que foram impostas pelos organismos multilaterais a diversos países latino-americanos. Seria possível pensar em um descolamento do desenvolvimento mundial dos grandes centros econômicos de outrora? Com a parte da Europa na beira de um caos econômico e os Estados Unidos em lenta recuperação, poderiam os países em desenvolvimento – liderados por China, Índia e Brasil – se tornarem os novos motores e promotores de crescimento?  

Em verdade, estas são perguntas que ainda ficaram um bom tempo sem resposta. De conclusão, no entanto, podemos tomar que a Europa e os Estados Unidos não souberam ajustar suas economias aos próprios critérios que ajudaram a criar para os países em desenvolvimento. Resta também refletir se essa é uma tendência em longo prazo, ou se os grandes centros europeus e americanos podem se recuperar e retomar a dianteira da economia mundial. Para concluir, um grande caminho na área social segue existindo para os latino-americanos, como se pode concluir a partir dos estudos preliminares divulgados pela Comissão Econômica para América Latina (CEPAL) e UNICEF acerca da pobreza infantil na região. O contraste, contudo, não diminui a importância da nova “cara” que a América Latina vem ganhando.


Categorias: Américas


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