O novo e o velho

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Nos últimos dias tem-se tido uma mistura de sensações na terra do Tio Sam. O “novo” e o “velho”. Ou melhor, expectativa e a conservação no tema das armas de fogo. Atiradores malucos com gravíssimos problemas psicológicos massacrando inocentes com armas já são uma constante nos Estados Unidos. O velho. 

No mínimo uma vez por ano ouvimos falar de alguma atrocidade do gênero. O último foi o massacre no colégio de Sandy Hook, na cidade de Newtown, em Connectcut que deixou 27 pessoas mortas, dentre elas 20 crianças. Com a tragédia, veio também, provavelmente pela milésima vez, o ímpeto de discutir o porte de armas de fogo no país. Ainda, o velho. Algo que no Brasil, com também uma dose de polêmica, se resolveu com o referendo de 2004. 

A diferença é que nos EUA a discussão sempre vem à tona em torno da tal segunda emenda da constituição. Basicamente, trata-se daquele artigo escrito no século XVIII que garantia aos americanos as armas de fogo para que pudessem se proteger contra os ingleses. O problema é que o lobby pró-armamentos, financiado pela National Rifle Association (NRA) é muito forte e o tema divide tanto republicanos e democratas quanto o restante da população. É interessante que para muitos estadunidenses o porte das armas de fogo lhes é tão caro que retirar seu direito de tê-las significaria aliená-los de sua própria liberdade (clique aqui para reler um post no blog sobre o tema).

Liberdade essa que para muitos tem sido custosa demais. Segundo estimativas, nos EUA morrem 34 americanos por armas de fogo por dia. Em alguns estados, como Columbia, Maryland e Virginia, mais pessoas padecem dessa forma do que por acidentes de trânsito. Em 2010, por exemplo, morreram aproximadamente 1280 pessoas em acidentes e 1512 por armas, segundo estudo da Violence Policy Center. 

Em defesa do controle do porte de armas, a mesma organização estimou que tanto o volume de armas por pessoa quanto o por casa tem declinado no país nos últimos anos. Entre 1990 e 2010, o valor caiu aproximadamente 13,5%, podendo significar desde a redução da popularidade do esporte de caça até o envelhecimento da população que tem porte e um desinteresse dos mais novos por essas armas. Mesmo assim, o Escritório da ONU contra Armas e Crimes (UNDOC) aponta os EUA como o país mais armado do mundo, com a média de 270 milhões de armas em posse da população em 2007. 

Esses dados não significam que os EUA sejam um país extremamente violento, simplesmente que cresce a probabilidade de que pessoas com problemas psicológicos severos e péssimas intenções se apoderem de armas. Além do que, muitas das armas que são contrabandeados para países do restante das Américas saem dos Estados Unidos. Nos EUA, por exemplo, com esse fácil acesso às armas de fogo, a taxa de óbitos por armas de fogo é de 3,2 por 100 mil habitantes, enquanto que, no Brasil, com sua legislação mais rígida, chega a 19,3 por 100 mil habitantes. 

Mesmo frente a esse cenário e após o atirador de Denver, em julho desse ano, ter matado 12 pessoas em um cinema, os candidatos à presidência mal quiseram mencionar a questão do controle às armas. O velho repetido. 

Agora, com mais um massacre (e passadas as eleições…), Obama apontou que quer mudar de postura. Que, a partir de agora, vai considerar o controle do porte de armas de fogo uma de suas prioridades em 2013. Defendeu até falar sobre isso em seu discurso sobre o “Estado da União” no início do ano. Finalmente, o novo. Mas será mesmo? 

As propostas vão desde a apresentação de atestado de psiquiatras para a compra de armas até maior rigidez para compra de armas automáticas e de balas (pois, uma pistola poderia ainda ter matado as crianças, mas, talvez se tivesse que ter parado para carregar, menos teriam morrido). Bom, seja como for, a história fica para o ano que vem. Espera-se que o tema volte à pauta e o “novo” não deixe de ser expectativa para se tornar o “velho”, mais estatísticas de atrocidades.

[Post escrito pelo colaborador Raphael Lima.]


Categorias: Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


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