O novo "Angelus Novus"

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Em 1920, Paul Klee pintou a sua famosa obra intitulada “Angelus Novus”, ou “Novo Anjo”, objeto de profunda reflexão por Walter Benjamin. O quadro, embora bisonho à primeira vista, está repleto de significações. O anjo, no centro da obra, está horrorizado com tantas atrocidades e abominações do passado e do presente, que igualmente são empurradas para o futuro, numa tempestade nebulosa chamada progresso. Em meio aos mares de sangue e oceanos da miséria humana, o anjo é incapaz de se mover, fita o passado com tristeza e anseia por um futuro menos desgraçado, mas não perfeito. Mais do que uma obra divisora da modernidade, é uma obra pensada para além do seu tempo, abarcando antagonismos que apagam a esperança. Recentemente, os pincéis da política internacional repintam um novo “Angelus Novus” no Oriente Médio.

O Irã persiste como a pedra no caminho das grandes potências. Ontem, a União Européia resolveu adotar novas sanções econômicas contra o país – à semelhança dos norte-americanos -, proibindo negócios com bancos e companhias de seguro e investimentos nos setores de gás e petróleo. A Rússia protestou. Ahmadinejad desconversou. Também em resposta ao vazamento (tratado pelo Álvaro ontem) de informações confidenciais dos Estados Unidos, supôs uma invasão norte-americana a pelo menos dois países do Oriente Médio nos próximos três meses, sem especificar quais e as fontes de tal informação. Concomitantemente, o presidente iraniano considera-se pronto para retornar as negociações sobre a troca de combustível nuclear e aberto ao diálogo sobre seu programa nuclear a partir de setembro, esperando contar com a participação do Brasil.

O Iraque vive a quimera da reconstrução. As ilusões democráticas se converteram em maldições socráticas, na medida em que a implementação da democracia, motivo da “intervenção” norte-americana, infligiu um conceito inalcançável de “bem” para o país. Bem que fenece a cada atentado – o mais recente ocorreu ontem e deixou 25 mortos – e que é desacreditado a cada desconcerto político. Em meio a tanta bagunça e o fortalecimento dos insurgentes, dificilmente as tropas deixarão o país em 2011. Hoje se noticiou o “sumiço” de US$ 8,7 bilhões destinados a reconstrução do Iraque e que os militares não sabem para onde foi esse dinheiro. O Parlamento adiou outra vez a retomada de suas sessões, após as eleições de março. Curiosamente, a situação iraquiana serviu de analogia para um futuro desdobramento das tensões entre Venezuela e Colômbia, no discurso de Chávez na ONU.

Certamente, o quadro não poderia ser repintado, sem as pinceladas sobre as negociações de paz entre palestinos e israelenses. A União Européia pede a abertura do bloqueio a Gaza, região que o premiê inglês, David Camerom, chamou de “prisão a céu aberto”. Netanyahu fez uma visita surpresa a Jordânia, para conversar com o rei Abdullah II, pouco depois deste ter se reunido com Abbas. O chanceler brasileiro Celso Amorim também está de passagem pela região, considerada importante para um porta-voz palestino. No entanto, perdura a questão se as negociações se darão de maneira direta ou não. E continua o exercício de déjà vu e futurologia…

A sorte está lançada para o Oriente Médio, este anjo imóvel na história contemporânea. Os ventos do passado e do presente carregam todos os insucessos para conduzi-lo ao futuro, uma iminente repetição de outrora. Muitas manobras que estão em curso, sobretudo das grandes potências, não deverão conferir mobilidade ao anjo. Outrossim, esse mesmo anjo não pode se mover enquanto voltar seu olhar estritamente para as atrocidades do passado. Nesta divisa entre tempos e possibilidades, as alternativas podem estar na audácia de lidar com o incerto e inovador, simultaneamente, como uma diplomacia mais aberta a atores e voltada mais ao diálogo e menos à coerção, sem o ilusionismo da paz puramente pelas palavras, mas dosada por um realismo que leve em conta a sombra da guerra e da instabilidade. Há um lugar para o Irã, Iraque, Palestina e Israel no mundo, que não seja aquele ocupado pelo Angelus Novus.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mirtão
Mirtão

Nesse “post”, o companheiro Giovanni propõe uma diplomacia mais versátil, talvez incerta e inovadora, que se voltaria mais ao diálogo e menos à coerção; que faria com que as atuais relações internacionais saíssem desta situação estagnada – brilhantemente simbolizada com a figura do Angel Novus.Ora, confesso que na leitura desta proposição procurei pensar em tal diplomacia versátil, e logo veio à minha mente a figura de Lula, a sua versatilidade e o perigo da sua diplomacia.Lula, o rei da arte do diálogo! O cara! O presidente do Brasil! Aquele que veio do povo, que já foi trabalhador como Severino, José e João! “Ô Zé, vem vê o Lula falano! Ele tá falano du dinhero qui us minino recébi no final du mêis! Intendí!”... “Corrupoquê? Ô hômi, mais ele num tá falanu qui num feiz nada? Ah, bão!” Enfim, Lula, a maior prova de que é possível a ascensão social no Brasil, mostra-se como um político versátil, que fala/decide com os grandes, mas que também fala com o povo... Destarte, o que ressalto aqui é a sua versatilidade... o seu talento de falar com os mais variados públicos, inclusive com o povo brasileiro, tão marginalizado da política brasileira. No cenário internacional a mesma coisa! “O cara! Olha o Lula conversando com todo mundo! Mas este aqui não é inimigo daquele lá? Acho que ele vai resolver a briga! Que bom! Esse aqui não é o que matou 10 mil no Congo? Estranho! Aquele lá não é o que mata os opositores? Ah, negócios são negócios!”O Lula é bastante versátil! É apegado a uma boa conversa com todo mundo... e por que não um bom almoço com toda essa galera? Ah, por fim eles enchem a pança, o Lula fala bem da democracia enquanto os seus amigos tiram uma sesta... e vai-se o Lula embora pra ninguém ficar reclamando muito, repito, muito! Quem sabe não consegue um voto lá pra frente?Passada a grotesca empolgação, atentemos para a questão dos princípios. Princípio é aquilo que dá origem a algo, digamos, um sistema. Mas não é só isso. Além de dar origem, norteia os caminhos pelos quais este sistema deverá seguir. No paralelo “diplomacia” e “princípio” o detalhe é que a diplomacia lulista olvidou-se dos princípios democráticos e vem se omitindo/desculpando quando questionada.Portanto, nego o modelo versátil/inovador e quiçá pragmático de nosso carismático presidente como opção para as relações internacionais futuras, visando uma coesão entre a essência de um Sistema Normativo (que no nosso caso é a democracia) e as atitudes tomadas, que por vezes fingem nada estar ocorrendo (como ocorreu com as visitas do governo Lula aos ditadores Paul Biya/Camarões, Denis Sassou-Nguesso/Congo, Blaise Compaoré/ Burkina Faso).Destarte, Lula segue fazendo o papel de bonzinho pra todo mundo, democratas e ditadores, visando um maquiavelismo comercial, já afirmado por Celso Amorim quando disse que “Negócios são negócios” na visita do governo Lula ao ditador da Guiné Equatorial Teodoro Obiang Mbsogo.Se não for um maquiavelismo comercial, talvez seja pessoal... Afinal, o governo Lula acaba neste ano, e ele precisa arrumar um emprego... Facilita sendo carismático, não?Altamir Guilherme Júnior - UNESP-Franca