O mundo poderia voltar-se para Mianmar

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O título é uma analogia do artigo lançado ontem na revista Foreing Policy, “The World Comes to Meca”. Se, no artigo, o mundo se volta para Meca por devoção religiosa, pelos acontecimentos recentes, um olhar mais cuidadoso (e necessário) poderia recair sobre Mianmar. A libertação de Suu Kyi, ativista política e Nobel da Paz em 1991, repercutiu internacionalmente e trouxe uma nova esperança de democratização do país.

Filha de herói, heroína também é – Obama, por exemplo, reconheceu-a como tal. Seu pai, o general Aung San, foi o grande responsável pela independência do país em 1947. Agora, Suu Kyi pode se transformar na mentora da redemocratização, tendo em vista que uma Junta Militar governa Mianmar desde 1962. Tal junta impediu a ativista de governar, quando venceu as eleições nacionais em 1990, e a alternou entre a prisão e uma espécie de liberdade reprimida. (Vejam aqui o perfil de Suu Kyi)

A comunidade internacional celebrou o fato. Obama, Ban Ki-moon, Sarkozy e toda a trupe de líderes e altos representantes de países e organizações. Até aqui, não fizeram mais que o óbvio. Agora vem a questão: o que fazer após a libertação? É claro que tal ato se divide entre o ceticismo e a promessa. A Junta Militar anunciou que Suu Kyi pode fazer o que bem entender, sem restrições, mas o seu objetivo declarado é liderar uma ‘revolução pacífica’ que redemocratize o país. Será que depois de 48 anos Junta Militar assinaria o seu atestado de óbito? Porque se a democratização dependesse do apoio da comunidade internacional não aconteceria nada, já que todos esses discursos momentâneos não têm passado de meras formalidades. (Ouçam aqui sobre a redemocratização)

E quando se fala em prestar ajuda humanitária, muitas vezes, aparece em primeiro plano a intervenção. Um dos advogados de Suu Kyi recomendou isso a Ban Ki-moon. Valeria a pena intervir em Mianmar? Sabe-se que até então, uma das expressões do ato de força tem sido a adoção de sanções econômicas por parte de alguns países (Estados Unidos, Canadá, União Européia), na luta contra um regime político num dos países mais pobres do sudeste asiático. Resultado: a repressão da liberdade se estendeu para além da esfera política, atingindo formas diversas de privação, como pobreza, fome, doenças, etc. Uma eventual intervenção militar deverá acrescentar outra forma de privação: morte, a ausência da liberdade de viver.

Em curto prazo, toda intervenção é um sucesso. Depõe um governo autoritário e põe um governo fantoche. Em Mianmar, pior do que no Iraque, há uma diversidade étnica muito maior. Aparentemente, eles se unem a Suu Kyi na luta endógena contra um regime de força. Se Suu Kyi fosse colocada verticalmente no poder, manteria toda a população unida? Pode não ser prudente arriscar, mas completamente válido riscar as sanções impostas ao país e acompanhar o processo de redemocratização, a revolução pacífica, proposta pelo povo. É preciso que a comunidade internacional fomente um debate público de qualidade sobre Mianmar e não apenas circunstancial, quando um fato expressivo ocorre.


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Giovanni, parabéns pelo post!Acredito que a temática que você escolheu para discutir é realmente pertinente, na medida em que a perspectiva de Assistência Humanitária muitas vezes se restringe apenas à perspectiva de "alívio" (necessária, é claro, mas não a única) sem compreender a noção de desenvolvimento que deve ser levantada no debate.Que a esperança suscitada por Suu Kyi possa render bons frutos a Mianmar é o que espero.Beijos!