O mundo é bão Sebastião

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Pelo menos, é o que a canção do Nando Reis diz. Deve ser mesmo bom, mas para o Sebastião. Já para o Obama, as coisas são mais complicadas. Da América Central até a Coréia do Norte, fazendo uma longa parada no Oriente Médio, há inúmeros desafios que devem colocar em xeque a escolha do atual presidente norte-americano para o Prêmio Nobel da Paz deste ano.


Nem completou uma semana da concessão de tão distinta honraria e uma recente ata do Fatah afirmou categoricamente que a esperança sobre Obama acabou; o líder norte-americano cedeu em prol de Israel contra a causa palestina. Notem que mesmo no imediato posterior a sua nomeação, Ismail Haniyeh, líder do Hamas na faixa de Gaza, já havia declarado que “se não houver verdadeira mudança nas políticas dos EUA sobre o reconhecimento dos direitos palestinos, acho que esse prêmio não nos levará nem para frente nem para trás.” Desde já, verifica-se uma postura de cobrança que sobreleva as responsabilidades a serem assumidas.

Se, por um lado, os palestinos desacreditaram Obama, por outro, alguns inimigos dos Estados Unidos resolveram “comemorar” a concessão do Nobel da Paz ao seus atual presidente. No Dia das Crianças deste ano, até gente grande decidiu brincar e brincaram com brinquedos perigosos. Por exemplo, no Paquistão, o Taleban soltou um carro-bomba que matou mais de 40 pessoas. A Coréia do Norte não ficou atrás, Kim Jong-il, para relembrar os seus quase apagados anos de infância, ordenou o teste de cinco mísseis de curto alcance. O Irã também tem relutado na questão nuclear e o governo norte-americano sofre discordância da Rússia para aplicação de sanções ao país.

Inegavelmente, sobressai a indagação: é possível um mundo sem armas nucleares? Aliás, este foi um dos quesitos para a contemplação de Obama, já que o líder assumiu o compromisso de libertar o globo desse flagelo. (Vejam o discurso de Obama sobre a premiação) Até agora, as iniciativas são maiores que as realizações. Mas tudo bem, está em perfeito acordo com o propósito da premiação. Vejam vocês que no próprio testamento do criador do prêmio – há mais de cem anos -, Alfred Nobel, elencava que os escolhidos deveriam apresentar “tendências idealistas”. Ressalta-se também todo o pacifismo do próprio Nobel, que foi químico e inventou a dinamite.

A vida é mesmo uma caixinha de surpresas! E de incongruências também.

Outro aspecto interessante – já tratado no post do Alcir – é a humildade e a sua auto-cobrança no discurso de Obama após a premiação. E, é claro, não poderia falta a ênfase na liderança dos Estados Unidos. Seria possível a conciliação dessa liderança com os propósitos da paz? Que tipo de paz se busca, apenas a mera ausência da guerra? A paz implica no preparo para a guerra, num estrito sentido realista? Nem mesmo quando falamos de paz deixamos o seu gêmeo siamês de lado, a guerra. Sempre brigam, são definidos em oposição, mas um não vive sem o outro.

Diz um trecho da canção mencionada no início “quando invento, o mundo é feito de idéias”. Isso para o Sebastião. Para o Obama, inventar pode não ser tão complicado, mas pôr em prática sim. O Nobel da Paz traz, indubitavelmente, grandes desafios para o atual presidente dos Estados Unidos e seu dever é para com a paz, não apenas para a idealização da mesma. Uma paz em um mundo não tão “bão”. Reescrevamos a música, “O mundo não é bão, Obama”, e deixemos que o tempo reescreva a letra.


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