O mundo dá voltas

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As sociedades humanas têm como característica a imprevisibilidade. Por mais que áreas do estudo como a sociologia e a antropologia tentem estabelecer padrões, é muito difícil, pra não dizer impossível, prever os comportamentos que podem decorrer das interações sociais. Mesmo havendo elementos de fortalecimento como um modo de governo ou religião comum, basta haver algum tipo de inflexão que escape ao campo da previsibilidade para que tudo que se julga senso comum ou realidade consolidada possa ser desconstruído.

No Iraque, no último fim de semana, se deram as eleições parlamentares. Apesar de ameaças de grupos radicais, ataques terroristas e explosões de bombas durante todo o dia de votação, houve uma surpreendente baixa taxa de abstenção. Com a atuação dos eleitores elogiada por todo o mundo ocidental (como na França e nos EUA), e a votação sendo considerada idônea pela ONU, as eleições do dia 7 de março demonstram como o povo iraquiano – o mesmo imerso em uma guerra interna contínua desde a ocupação, ameaçado pelo sectarismo e vitimado por um governo ineficiente e corrupto – experimentou um despertar tardio de um espírito político e, por que não, democrático. Até onde se sabe, as eleições mostram que a população está insatisfeita com os rumos do governo e através do voto busca mudanças. Os candidatos podem ser mais do mesmo, mas essa percepção declarada dos próprios eleitores, com a consciência da importância vital da sua participação na construção da governança é notável, ainda mais tendo em vista os fatos dos últimos anos. Estas eleições poderiam se tornar mais um insucesso acumulado na sequência infeliz de fatos recentes no Iraque, mas demonstram a tendência de consolidação democrática no país, e isso já é uma esperança.

Por outro lado, no Chile, pode-se dizer que houve um fenômeno quase que oposto, mesmo que por um tempo limitado. O país, considerado um baluarte da democracia na América do Sul, com taxas de crescimento expressivas e população letrada, enfrenta um momento de destruição, com a sociedade e a economia degringolando junto. Por mais que os efeitos sociais tenham sido terríveis e se solidarize com o sofrimento das vítimas, nada justifica o espírito de selvageria que assolou algumas partes do país nos dias seguintes ao terremoto. Sobreviventes de outros terremotos, em especial os mais antigos, relatam a perplexidade ao comparar as reações de solidariedade tidas no passado, contrapostas ao egoísmo e pilhagem ocorridas na última semana. Não se condena o saque pela sobrevivência; mas eis que se viam pessoas carregando televisores e geladeiras, jovens de classe média pilhando postos de gasolina e associações de moradores montando barricadas e com espingardas à mão para conter as chusmas. Do dia para a noite, no que pese a reação tardia do governo Bachelet, houve um breve instante em que o Estado deixou de atuar pela salvaguarda da população, e uma das sociedades mais “civilizadas” da América regrediu ao velho oeste, com a sanha consumista de uns se exacerbando ao ser incitada pelo sofrimento de outros. Tanto que, restaurada a governança, até o dia de hoje mais de 2 milhões de dólares em produtos saqueados (e não víveres, mas coisas como televisões de tela plana e aparelhos de DVD) já foram recuperados ou devolvidos sob ameaça de prisão para os saqueadores. O Chile vai sofrer com a reconstrução e o peso econômico do terremoto, mas talvez haja cicatrizes ainda mais profundas na própria sociedade, que terá que enfrentar a vergonha de seus próprios atos.

No Iraque, por mais que a situação fosse desfavorável, a preparação e o desejo de mudança da população fizeram o inimaginável, fomentando a ordem em uma situação de caos. No Chile, um breve incidente de ruptura histórica causou o inimaginável, fomentando o caos no país onde menos se esperaria. Se o terremoto alterou um pouco o eixo de rotação da Terra, às vezes parece que no aspecto das relações sociais o planeta já está de cabeça pra baixo.


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