O México é aqui?

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Pois é, época de eleições e não se fala em outra coisa no Brasil. Como já tratamos de eleições pelos quatro cantos do mundo (apesar deste ser redondo) em 2010, hora de comentar um pouco o pleito nacional. No espírito da imparcialidade, vamos focar em um aspecto um pouco diferente, mas não menos aventado na mídia – umas análises meio alarmistas que andam saindo de “mexicanização” do Brasil.

“Mexicanização”? É o nome que se deu no Brasil ao processo de institucionalização de uma “ditadura branca” (termo meio que controverso) no México durante mais de 60 anos com o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que se manteve hegemônico no México dos anos 30 aos 2000. Assumindo um caráter de início extremamente popular, com o resgate de princípios da Revolução de 1910, tornou-se uma espécie de bloco hegemônico e considerado unipartidário (havia outros partidos, mas de tão pequena expressão que na prática apenas o PRI concorria). Por isso o aspecto de “ditadura”, pois as eleições livres estariam apenas dando uma carapuça democrática a um governo contínuo.

E o Brasil com isso? Já houve temores de coisas semelhante ocorrer por aqui antes (tanto que o termo já existia), por exemplo, na época das acachapantes vitorias da ARENA. Nunca se chegou ao ponto de um unipartidarismo mascarado por aqui. Porém, o que se anda dizendo é que caso o PSDB seja derrotado nas principais instâncias governamentais, não tenha forças para se reerguer como oposição nacional e abra caminho para um processo semelhante de erosão com uma hegemonia de centro-esquerda fundamentada no maquinário estatal e pessoal dos anos Lula.

A discussão sobre isso é complicada, mas tenhamos em mente, contudo e de maneira breve, que são situações bem diferentes, pois a oposição aqui, apesar de um pouco ineficiente nos últimos anos, ainda é bem organizada. Ademais, e principalmente, para algo assim dar certo, um eventual governo que mantenha as bases atuais dependeria de bons ventos internacionais para se sustentar, visto que é isso que mantém o sucesso do país hoje. Quando a economia internacional não estiver tão favorável, e isso vai acontecer cedo ou tarde, o Brasil enfrentará o rombo fiscal e um monte de outros problemas até agora contornados, o que contribuiria para uma provável perda de popularidade. Quando se trata de mudar de opinião, a economia geralmente se reflete imediatamente na opinião povo – Obama que o diga. Assim, o risco desse tipo de hegemonização seria relativamente improvável.

Um último ponto de reflexão: poderíamos pensar também em “mexicanização” com a escalada da violência? Nada é impossível, e claro que no Brasil a coisa está feia, mas ainda não está nos patamares catastróficos do México, com mais de 20 mil mortes, em pouco mais de 4 anos, diretamente ligadas ao narcotráfico. Se não acredito que vá haver essa mexicanização política, tampouco que haja um dia em que aconteçam por aqui e com regularidade massacres como o da semana passada. O México não é aqui, espero.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


1 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Particularmente, penso que a mexicanização da política brasileira é um extremo exagero. Isto só foi possível no México por via revolucionária e no momento em que a questão do petróleo, bem como a independência do país, estavam em xeque. Chegar ao unipartidarismo, sem condições extraordinárias, a mim me parece uma quimera.