O mercado de trabalho brasileiro

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O Brasil parece ter perdido aquele rumo de crescimento constante e agressivo. Talvez este fato ajude a corroborar a tese de que o visto nos últimos tempos era fruto de condições conjunturais. Neste contexto, não foram realizadas reformas estruturais que garantissem a continuidade deste ciclo. Por este motivo, ainda seguindo está teoria, estamos enfrentando a atual situação. Os gargalos brasileiros ficam evidenciados na alta carga tributária, infraestrutura longe do ideal, dependência da demanda externa por nossos produtos, entre outros. 

Contudo, outro elemento pode nos ajudar a esclarecer questões vinculadas ao desempenho de nossa economia. Trata-se justamente do que move todas as atividades produtivas: a força de trabalho. Há estudos realizados periodicamente pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômico), órgão vinculado ao Ministério do Trabalho, que fornecem informações importantes com relação às movimentações neste âmbito. O número de vínculos trabalhistas ativos e as taxas de rotatividade do mercado são os principais dados utilizados. Ambos apresentam fortes correlações com os ciclos econômicos.

O último estudo conduzido pelo DIEESE apontou que o número de vínculos trabalhistas aumentou consistentemente nos últimos anos, junto com os níveis salariais praticados e a escolaridade média do trabalhador. Estes dados revelam uma melhoria das condições existentes para aqueles que buscam emprego ou desejam encontrar uma nova oportunidade. Ao mesmo tempo, indicam que a força de trabalho está buscando maior capacitação. Por outro lado, a rotatividade (37,3% em 2010) cresceu de forma semelhante, ou seja, as empresas também estão substituindo mais frequentemente seus funcionários para contratar outros. O uso de contratos temporários, também considerados neste indicador pelo DIEESE, representa outra tática muito utilizada pelas empresas.

Assim, fica mais fácil entender o porquê da diminuição do tempo médio dos brasileiros na mesma organização. Em 2009 foi de 3,9 anos; contra 4,4 anos em 2000. Os desligamentos estão em sua grande parte concentrados nos trabalhadores com menos de dois anos de vínculo (79,6%). Os desligamentos involuntários não têm grandes restrições, somente a indenização econômica no ato da demissão.  Configura-se, portanto, uma grande facilidade para demitir e contratar, o que impacta nas políticas públicas de emprego, trabalho e renda. O trabalhador, por sua vez, está protegido por uma lei trabalhista que lhe garante muitos direitos. Poucos são os casos de desligamentos por justa causa, aqueles que não envolvem indenização. Além disto, há a proteção do seguro desemprego e a grande oferta de vagas. 

É evidente que as condições estruturais criadas pelo governo podem impactar fortemente o ambiente de negócios. Uma política pública mais sólida nos garantiria uma maior sustentabilidade econômica, afastando uma possível dependência por fatores conjunturais favoráveis. Alguns levantaram até mesmo a possibilidade de estarmos próximos ao pleno emprego, já refutado por especialistas. Fato é que, no setor empresarial, o grande desafio relacionado à força de trabalho (especialmente os 80% que recebem até 2 salários mínimos) será motivá-los a querer produzir mais e melhor. Afinal, está cada vez mais fácil encontrar um emprego com condições melhores. Para as empresas, olhar para o próprio umbigo talvez ajude a encontrar respostas. Muitas descobrirão que é mais barato contratar para reter do que contratar para substituir posteriormente. Isto não depende do governo. 


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