O melhor jornal do mundo caiu

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A imprensa, que tantas vezes modificou os rumos da história, viu nascer um escândalo no Reino Unido que ensejou um debate para rediscutir a tênue linha que separa sua missão e seus limites. A convivência entre o sensacionalista “News of the World” e os políticos britânicos nunca sofrera uma crise tão intensa. Para alguns a relação aproximou-se de uma lua de mel em diversas situações. Agora, os múltiplos escândalos de escutas ilegais viraram o centro das discussões, ocasionando inclusive o encerramento das atividades do tablóide mais popular do Reino Unido.

Os tablóides são uma maneira de expressão popular. Diversos veículos adotam estratégias similares para alavancar vendas e apelo publicitário. Os assuntos, de acordo com o contexto local ou nacional, são simples e de pouco conteúdo (para não dizer obscenos). Quem não viu jornais impressos e programas de televisão tratarem quase que exclusivamente de violência urbana, escândalos e crimes? O sucesso, medido através dos índices de vendas e ibope, é diretamente proporcional ao apelo popular. Mais fácil vender o que de fato gera interesse. O surgimento do “News of the World”, em 1843, está vinculado ao nascimento de um jornalismo popular direcionado para uma população britânica recém-alfabetizadas. Desde então, a fórmula foi amplamente reproduzida e teve estrondoso sucesso.

Rupert Murdoch, o magnata da mídia, terá um longo caminho pela frente se quiser defender seu império. O que antes era influência e prestígio junto à classe política, já se transformou em intensas críticas e no risco de intervenção do governo no que antes era a sagrada liberdade de imprensa. Não há mais espaço para condescendência com veículos com más condutas e relações ambíguas entre políticos e magnatas da mídia. A impunidade parece ter acabado. O tablóide britânico foi traído pela prática constante e impune de ilegalidades no acesso de informações exclusivas. Talvez os responsáveis por tal linha editorial, os quais supostamente nem sabiam das práticas conduzidas, tenham sido traídos pela segurança de não serem descobertos, e se descobertos não responsabilizados.

O tablóide pode cair, o império e seus súditos não. Murdoch se desculpou, fez acordos para indenizar vítimas, fechou o veículo causador do estrago. Ainda lhe resta o “The Sun” no Reino Unido, sem esquecermos o respeitado “Wall Street Journal” nos Estados Unidos. O caso do “News of the World” remonta a um problema maior: a informação interessada (com anuência da classe política) levada às grandes massas. Ao povo fica reservado o trivial, enquanto que magnatas decidem quais notícias serão publicadas e com qual enfoque. Os políticos por sua vez, ficam com o que lhes convém.

Nem David Cameron, primeiro-ministro britânico, conseguir escapar do escândalo.


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