O martírio do Sr. Normal

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A mudança que um ano teve na vida do presidente francês foi impressionante. Claro que existem as dificuldades de se governar em tempos econômicos difíceis, mas François Hollande não deve ter imaginado o que viria. O seu nível de popularidade atingiu 24%, o menor desde a fundação da chamada Quinta República francesa, em 1958. Ele conseguiu desagradar a esquerda, que seu partido socialista tende a representar, além de seus opositores regulares da direita. Um outro partido de esquerda fala inclusive da necessidade de fundar a Sexta República. 

Seu principal concorrente há um ano, Nicolas Sarkozy, afirmou que se perdesse nunca mais os franceses iam ouvir falar dele. Mesmo com os seus recentes escândalos (ter recebido doações de Kadafi para sua candidatura em 2007 e ter abusado da boa vontade de uma herdeira idosa), ele parece ensaiar um retorno. Hollande não parece simpatizar nem com a ideia e muito menos com a figura. Em um evento público recente, o presidente respondeu a esta inocente pergunta de uma criança “E o Sarkozy, onde ele está?” com a categórica frase “Você nunca mais o verá”.  

Pois bem, talvez o reencontro não seja tão improvável quanto pensa (ou gostaria) Hollande. Sejamos justos, o próprio candidato “normal”, como se autodenominava o agora presidente, sabia que os dois primeiros anos do seu mandato seriam difíceis e que os frutos seriam colhidos nos três finais. Vai explicar isto para alguém agora. Um jornal encontrou um novo apelido para o incumbente: “o Sr. Fraco”. Em outro levantamento jornalístico, somente 17 das 31 promessas de campanha teriam sido cumpridas. Contudo, o pior evento até agora foi o escândalo das contas no exterior de seu ministro do orçamento. O governo exemplar que fora prometido contrastou com as mentiras descaradas de um políticode sua confiança.  

Partindo de mais de 60% de aprovação, passando pela cruzada contra os ricos, pela a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo (pelo Parlamento, vale lembrar), chegando finalmente em uma economia cambaleante. Isto já bastaria. Foi além, com o aumento do desemprego, parte de sua base de apoio mudou de time. Além disto, manifestaçõescontrárias à expansão do casamento para todos se tornaram barulhentas. Aquela normalidade frente à excepcionalidade (referência à Sarkozy-Bruni) prometida passou a ser questionada. Pelo menos os gastos de sua companheira são três vezes menores que os da estrela Carla Bruni, isso ele pode dizer. 

É nessas horas que o Sarkozy deve chegar a sua conclusão “serei forçado a voltar” e que a Angela Merkel, chanceler da Alemanha, deve pensar “eu bem que preferia o Sarkozy, olha no que deu”. Tem ainda extrema direita da Frente Nacional no retrovisor. Mesmo assim, Hollande tem mais 4 anos para virar o jogo. De imediato, fica sua promessa de inverter a curva do desemprego até o final do ano, diminuir o número de soldados franceses no Mali, além de outras medidas para reativar a economia e rever benefícios sociais.  

Ao menos, como diria Tiririca, parece que “pior que tá não fica”.     

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Categorias: Europa, Política e Política Externa


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