O jogo dos blocos

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Não, o título do post não se faz alusão aos coloridos blocos de Tetris que marcaram certamente a infância de muitos que estão lendo este post. Os blocos a que me refiro são na verdade os grupos multilaterais criados por Estados com objetivos comuns que, assim como em um jogo de Tetris, procuram se complementar entre si em busca de vantagens comuns, formando o complexo quebra-cabeça das relações internacionais.

Encontros multilaterais são sempre alvo de textos no blog (o mais recente refere-se à recém-realizada Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, leia aqui) e o fato é que a coordenação entre países com interesses comuns (políticos, econômicos, etc.) tende apenas a melhorar suas condições de competição em relação ao contexto internacional como um todo. E os países asiáticos entendem muito bem essa lógica.

Na reunião da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) que acontece essa semana, uma proposta parece ganhar forças: a criação do que seria o maior bloco econômico mundial (!), com a bagatela de 3,5 bilhões de consumidores. O possível novo bloco deverá se chamar Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), incluindo os 10 países já membros da ASEAN, além do Japão, da Coréia do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia, e dos gigantes Índia e China. Hoje esse grupo de países responde por um terço do comércio e da produção econômica do mundo inteiro.

Muitas discussões ainda deverão ser realizadas para que este bloco comercial se concretize efetivamente como tal, mas a perspectiva é de que isto ocorra já em 2015. Superar diferenças entre os países-membros em prol da criação de um bloco de tamanha importância parece ser uma estratégia comum neste grande jogo de interesses internacionais. O “encaixe perfeito entre as peças” é o objetivo sempre almejado, mas esta “perfeição” certamente não pode ser vista na realidade assim como no jogo. Com interesses e conjunturas específicas a cada momento histórico, as negociações multilaterais sempre reservam grandes incertezas e instigam o debate constante.

A propósito, estas negociações da RCEP acontecem ao mesmo tempo em que um diálogo para a criação do Acordo da Associação Transpacífico (TPP), outro projeto de área de livre comércio, mas desta vez entre os Estados Unidos e outros dez países (dentre os quais não se encontra o gigante chinês). Coincidência?

Cada qual em sua área de influência, o que se percebe é que os países avaliam constantemente a possibilidade de se aliar uns aos outros em busca de vantagens competitivas: esta é a tônica do jogo. 


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


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