O jogo de culpar

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A tensão entre Rússia e Ucrânia ganhou contornos ainda mais dramáticos com a tragédia de ontem, quando um avião malaio saindo da Holanda caiu enquanto sobrevoava a Ucrânia. Os destroços fumegantes vão ter consequências muito maiores que a perda de vidas humanas.

Ironicamente, o avião é do mesmo modelo e da mesma empresa que aquele desaparecido em março desse ano no Pacífico. Porém, mais que o luto pelas perdas, e em vez de causar dúvidas pelo mistério das causas do sumiço e fazer explodir teorias conspiratórias que chegam a pensar em alienígenas, o caso do voo MH17 vai causar um impacto geopolítico seja qual for o resultado das possíveis investigações. Isso por que, ao contrário de boa parte dos acidentes dessa natureza, esse foi intencional – o avião de passageiros foi derrubado, possivelmente por um míssil, e o jogo de acusações entre Ucrânia e Rússia esquentou nas últimas 24 horas.

Antes de tudo, deve-se pensar na causa. O avião caiu na região de contencioso entre Ucrânia e rebeldes separatistas com apoio russo. Com a possibilidade de acidente descartada, resta a hipótese de abate. Algum dos lados do conflito atacou um avião cheio de civis pensando ser do inimigo. Somente um sistema de mísseis sofisticado (do tipo que precisa de vários caminhões para carregar todo o aparato necessário, dos misseis a radares) ou aviões de caça poderiam ter atingido o avião de passageiros a mais de 30 mil pés (cerca de 10 mil metros) de altitude. Isso não exclui nenhum dos lados. A grande questão nesse caso, e que agora sim começa a fazer pipocar teorias conspiratórias, é o que ganha cada lado.

Apesar da incerteza, a hipótese mais provável até o momento, segundo um telefonema interceptado pelo serviço de inteligência ucraniano, é que o rebeldes separatistas tenham abatido a aeronave. Eles teriam recebido da Rússia o equipamento necessário, e seriam o único lado interessado diretamente na derrubada de um avião inimigo – no caso, teriam pensado se tratar de aeronave militar ucraniana e atacado. Tanto Ucrânia quanto Rússia não teriam interesse algum em derrubar aviões naquela situação… mas poderiam fazê-lo? Aqui entra a conspiração, pois segundo a lógica, um jogaria a culpa no outro. A Ucrânia poderia ter derrubado o avião para por a culpa nos rebeldes (e desde o Vietnã sabemos que países forjam esses ataques para criar justificativas o tempo todo). A imprensa russa ventila ainda a hipótese de que o alvo teria sido ninguém menos que o presidente Putin, que estava voltando da cúpula do BRICS em avião que passou por rota semelhante poucas horas depois. Moscou, por seu lado, teria pouco interesse direto nesse ataque, mas podemos pensar em algo semelhante, caso tentasse botar a culpa em Kiev.

Se a motivação ou o meio são incertos, o que sabemos é que quase 300 pessoas morreram em um covarde, porém não inédito, ataque a aviões civis. A caixa-preta estaria em poder dos rebeldes, o que coloca em xeque a lisura da investigação, e a troca de acusações entre os países vizinhos parece não acabar tão cedo. Seja qual for o lado, se for comprovado que o ataque foi premeditado (que a Ucrânia acusa de “terrorismo”), mesmo que causado por um equívoco de julgamento, teremos mais uma crise que demandará uma ação incisiva da comunidade internacional, doa a quem doer, apesar de ser um daqueles casos em que se não surgir um furo de reportagem é possível que nunca se saiba o que realmente aconteceu pela escala e ardileza dos envolvidos. Nesse monte de especulação, informações desencontradas e bate-boca, é cedo para declarar a iminência de um conflito internacional, mas se torna um desfecho cada vez mais plausível – e o preço em vidas tende a aumentar.


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