O jogo das sombras na República Democrática do Congo

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Fonte: DefesaNet


“Geni viu os corpos das duas filhas serem arrastados pela correnteza de outubro, mês das chuvas. Forjou com o caçula um esconderijo sobre folhas de bananeira e ali ficaram até cessarem os gritos. Voltou à vila e encontrou a cabeça do marido, como as de outros homens da aldeia, secando ao sol em estacas – a marca do grupo liderado por um homem chamado Sheka.”  


Esta é uma das várias histórias tristes sobre a República Democrática do Congo (RDC). O relato foi descrito na excelente reportagem do Estadão, da jornalista Adriana Carranca, que cobriu o ataque de um grupo rebelde ao vilarejo Lwibo, na Província de Kivu do Norte. Entre tantas tragédias, uma boa notícia: o “Movimento de 23 de março” (M23), principal grupo rebelde congolês, anunciou sua rendição no último dia 5. Um fato significativo no longo percurso em direção à paz e estabilidade do país e da região, onde perdura um delicado jogo das sombras. 


A principal razão desse jogo é a riqueza inestimável da RDC. Se há uma linguagem universal para as interações sociais, ela se fundamenta em três palavras inter-relacionadas: poder, espaço e dinheiro. Uma matéria publicada na revista Tecnologia & Defesa destacou as riquezas do Congo: 30% das reservas mundiais de diamante, quinto maior produtor mundial de estanho e segundo, de cobre, é responsável pela metade da produção global de cobalto e detém 80% das reservas conhecidas de coltan (uma mistura composta de dois minerais: tantalita e columbita, material de alta resistência, muito utilizado na fabricação de eletrônicos).  


Tão logo se percebe que o conflito na RDC não é por liberdade ou democracia, trata-se de uma disputa por recursos naturais e domínio das áreas onde eles se encontram – sobretudo, no leste do país. Ressalta a matéria citada que os grupos rebeldes, particularmente o M23, são apenas a “ponta do iceberg”; submerso, está a oculta e acirrada luta das grandes potências pelo controle desses recursos. 


Neste sentido, a renúncia à luta armada por parte do M23 é parte – muito importante – do processo de pacificação e estabilização da RDC. Isto significa que, até o momento, a estratégia mais proativa e incisiva da comunidade internacional está surtindo efeito. A aprovação de uma brigada de intervenção no âmbito da MONUSCO, a missão de paz das Nações Unidas no país, e a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas por lá podem promover, inclusive, um ponto de inflexão na história congolesa.  


Antes mesmo de partir para a missão, tive a oportunidade de conversar diversas vezes com o general e ficou nítido todo seu entusiasmo em assumir esta grande responsabilidade. À época, dizia ele sobre os grupos rebeldes: “estes caras só entendem duas coisas: a força e o dinheiro”. A melhor maneira de agir, em sua opinião, era pressionar esses grupos de modo que não tivessem outra opção, senão um acordo político e a inserção dos ex-combatentes em um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração. E essa ação deveria ser permeada por contexto político favorável, negociando com atores externos envolvidos com o conflito, como Uganda e Ruanda.  


Há quase três semanas, em rápida visita ao Brasil, acabei me encontrando novamente com o general e pude ouvir as novidades de lá. Confidenciou o chefe militar brasileiro que foram travadas batalhas longas e sangrentas entre as tropas da ONU e os grupos rebeldes, além das atrocidades cometidas contra civis pelos revoltosos – cenas inimagináveis, diria ele. Ao mesmo tempo, deixava transparecer sua expectativa acerca de possíveis desdobramentos positivos na RDC.  


Um clima de otimismo,ainda que moderado, já toma conta da comunidade internacional. É preciso, no entanto, lidar com este jogo das sombras, à medida que se aprofunda a disputa pelos recursos naturais. As grandes potências – ou boa parte da alta classe delas –, que deveriam colocar a proteção dos civis em primeiro lugar, definem essa tarefa sob a ótica econômica, não humanitária. Se isso persistir, nunca haverá a superação do longo – embora segmentado – conflito na RDC.

Por e-mail, o general contou suas primeiras impressões de lá: “O Congo, em particular, é uma história fantástica e triste, de colonialismo e massacres inimagináveis. Talvez a dimensão dos números fez perder o sentido da dimensão humana dos absurdos.” Passou da hora de recuperar a humanidade.  


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