O inimigo do meu amigo é o quê?

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Comumente, no jogo de expressões e palavras das relações internacionais se afirma que o inimigo do meu amigo é também o meu inimigo. Até aqui, tudo bem, sem maiores problemas, entretanto, se tivermos que identificar as relações de amizade e inimizade nas interações estatais, a brincadeira fica realmente complicada. Ecos de Sun Tzu na política mundial contemporânea recomendariam que os Estados mantivessem próximos os amigos e os inimigos mais próximos ainda. No caso específico do continente americano, ambas as categorias estão cada vez mais confusas e facilmente alternáveis.

Uma nova moda está lançada nas Américas: o negócio agora é fazer acordo bilateral na sensível área da Defesa. Ao menos, é o que defende o subsecretário para o Hemisfério Ocidental (entenda-se continente americano) do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Arturo Valenzuela. Em recente visita ao Brasil – onde se encontrou inclusive com Nelson Jobim, ministro da Defesa -, o representante norte-americano declarou que a cooperação entre os países da região deve ser tratada bilateralmente, tendo como exemplo o acordo entre Estados Unidos e Colômbia para a ampliação de bases militares norte-americanas em território colombiano.

Aliás, esse acordo repercutiu enormemente na região. Travou a UNASUL e o recém-criado Conselho de Defesa Sul-Americano (CDSA), gerou infindáveis debates e declarações polêmicas. Amigos de quem e inimigos do quê? Ao amigo a defesa, ao inimigo o combate. Ao amigo a segurança, ao inimigo o medo. Deixemos de lado toda essa abstração por um pouco de pragmatismo, segue um exemplo: a amizade inimiga entre Estados Unidos e Colômbia e a inimizade amiga entre Estados Unidos e Venezuela.

As bases norte-americanas, inicialmente, deveriam visar ao combate do narcotráfico, o inimigo despersonalizado, e agora se justificam por causa do intrépido presidente venezuelano, Hugo Chávez, o inimigo personalizado. Por um lado, os Estados Unidos lutam ao lado do governo colombiano em prol de um assunto elevado à categoria de “assunto de segurança” para justificar uma intervenção militar, devoradora da soberania nacional e passível de alastramento pela América do Sul. Por outro, os Estados Unidos lutam contra as aspirações chavistas, incorporadas num projeto bolivariano para o continente e no reaparelhamento das Forças Armadas venezuelanas, sem, no entanto, negligenciarem os acordos comerciais em torno da questão petrolífera. O amigo do meu amigo se converte no meu inimigo, ao mesmo tempo em que o inimigo do meu amigo não é necessariamente meu inimigo.

Decerto, as amizades e as inimizades não estão plenamente consolidadas nas Américas. Talvez, nem poderiam estar, uma vez que o amigo que provê a defesa a um amigo é o mesmo que pode desprover a segurança dos demais amigos do último. Da mesma maneira, o combate ao inimigo não implica estritamente na disseminação do medo. Neste anacronismo, ora os Estados Unidos se apresentam como um amigo, ora como um inimigo de Colômbia e Venezuela, em específico, e da América do Sul como um todo. Contudo, este negócio de acordos bilaterais em defesa gera uma tremenda desconfiança, que tende a fazer a balança pesar mais para o lado da inimizade disfarçada em amizade.

É claro que, por um lado, um consenso na área de defesa é mais alcançável quando se envolve menos países. Porém, trazer à tona acordos bilaterais num ambiente político multilateral, que visa cada vez mais à integração, é entrar em contra-senso e desconsiderar o relativo progresso da região. Mais uma vez, o governo norte-americano pode estar usando subterfúgios para intervir legitimamente no continente sul-americano em benefício próprio. E a América do Sul fatalmente é acometida por um dilema: tratar os Estados Unidos como amigo ou inimigo? Caso a escolha seja a segunda, é melhor mantê-los mais próximos ou combatê-los veementemente? Assim caminhamos entre amigos e inimigos…


Categorias: Américas, Defesa, Estados Unidos, Paz, Segurança


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