O "Hollandismo"

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“A história mostra em toda parte que, quando partidos ou políticos de esquerda travam contato com a realidade, através de cargos políticos, tendem a abandonar sua utopia ‘doutrinária’ e a moverem-se para a direita, normalmente mantendo seus rótulos de esquerda e, desta forma, aumentando a confusão da terminologia política”. 

Edward Carr – Vinte Anos de Crise (1919-1939) 

Após seis meses de governo, o presidente francês François Hollande deu origem a mais um novo “ismo” nos dizeres políticos e econômicos internacionais: o “Hollandismo”. O que se observa até o presente momento é a realização de uma série de medidas para tentar colocar ordem na casa dos franceses e, consequentemente, mas em menor escala, na própria Europa. Com o ápice da crise financeira em 2008 e as incongruências governamentais de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, o atual presidente subiu ao pódio com um discurso reformador. 

Dívida, desemprego, perda de competitividade e déficit de crescimento foram os principais temas que preocupavam os franceses. Assim, qual seria a solução para todos estes problemas? Ninguém sabia ao certo, mas o discurso dito esquerdista de Hollande agradou a muitos. Já o chamavam de social-democrata, fazendo uma alusão à social-democracia alemã criada no século XIX, a qual tinha como preceito uma base marxista, acreditando que através de princípios democráticos se atingiria um governo socialista per se

Com o passar dos anos, esta ideologia ou forma de governo, como quiserem, foi ganhando novos contornos e adquiriu uma vertente norte-americana. Por sua vez, esta se baseou no velho conhecido Estado de bem-estar social, aglutinando o modelo capitalista com uma atuação estatal intensa nas vias políticas e econômicas de fato. Bem verdade, o “Hollandismo” parece seguir esta via, mas mesclando a velha cunha da esquerda. 

Ademais, o presidente também apela para o discurso nacionalista francês. Em alguns dos seus pronunciamentos, levantou palavras como “Estamos na França […] devemos fazer nação”. Se for para mudar, mudemos, mas sem deixar nossas bases antigas. Hollande quis unir o tradicional ao moderno, veio para mudar algo um tanto quanto imutável. Um semestre de governo ainda é pouco para apreciar mudanças significativas. 

Exemplo principal desta questão é a própria União Europeia. Vítima de ceticismo crescente após as sucessivas crises econômicas e do Euro, Sarkozy e Angela Merkel, chanceler alemã, eram o ponto de apoio de todo bloco. Hollande, para o bem ou para o mal, pareceu quebrar esta lógica e o diálogo com a vizinha Alemanha encontrou novas nuances. Em tempos de insatisfação popular, nada restou ao presidente a não ser pedir mais paciência aos franceses

O discurso de mudança sempre agrada a população quando há crise interna, isto é uma verdade incontestável. Por si só, a oratória de Hollande foi convincente, pois nada melhor do que um novo fôlego para alguém que precisa correr constantemente. É assim na França e é assim na Europa. Entretanto, sua ideologia mostrou-se (em partes) divergente da realidade até o presente momento. Denunciou veementemente as políticas de austeridade, mas as aplicou em menor grau nos últimos meses. 

Outra vez, conforme Hollande disse, vamos esperar pelos próximos anos de seu governo para não tirar conclusões precipitadas. No mais, as palavras de Edward Carr no começo do texto são um possível resumo do que vem a ser o “Hollandismo”, passada a febre inicial do novo governo.


Categorias: Economia, Europa


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