O Haiti é aqui?

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“Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.” […]

Os versos acima, eternizados por Caetano Veloso no início da década de 1990, refletem uma implícita crítica social e uma literal discussão que tem se destacado nas últimas semanas. Dois anos após o terremoto que devastou o país, constata-se a maior imigração haitiana para o Brasil desde o século XX. Desta forma, o assunto entra na pauta nacional e causa diversas reações.

O fato é que o terremoto que atingiu especialmente Porto Príncipe, a capital haitiana, há dois anos foi a “cereja” de um “bolo” que nunca encontrou o “ponto certo” – como nossas avós diriam (veja interessante post antigo no blog à época do terremoto aqui). A catástrofe natural que assolou o país foi de um nível de destruição tão alto que talvez só não seja superado pelo nível de incapacidade estrutural (notadamente do governo) em lidar com a situação que se seguiu.

Incapacidade que, segundo o atual governo – cujo mandato se iniciou em maio do ano passado –, foi herdada de governos anteriores. A afirmação não é falsa (pelo contrário!), mas é notável como tal herança parece multiplicar-se ao invés de desfazer-se com seus sucessores, assombrando um sofrido país e provocando inquietudes diversas.

Dada uma situação ainda em ruínas no país, a imigração tem sido considerada a única saída para muitos nacionais. E o equivalente ao tradicional “sonho americano” para os haitianos é, apesar do complicado acesso geográfico, o “sonho brasileiro”. Com a entrada recente (e em sua maior parte irregular) de aproximadamente 4 mil haitianos no Brasil, o assunto merece, sem dúvida, atenção especial.

Cidades amazônicas, especialmente Tabatinga (Amazonas, foto inicial do post) e Brasiléia (Acre), têm concentrado os imigrantes haitianos que chegam com a esperança de recomeçarem suas vidas em um país do qual a ideia de crescimento parece ser indissociável no momento. A noção de que esse crescimento acelerado é paradoxalmente acompanhado de desigualdades internas ainda extremas não parece indispor os haitianos a essa busca por uma recomeço em terras tupiniquins. O Haiti é aqui?

A concessão de vistos humanitários tem ocorrido aos haitianos que chegam, mas o governo anunciou ontem uma restrição a esse número mensal de vistos, almejando controlar o fluxo de imigração. Medida polêmica, já que a não aceitação do visto pode acarretar em deportação para o Haiti, onde a missão de reestabelecimento da paz da ONU (MINUSTAH) ainda é liderada pelo próprio Brasil. O Haiti é aqui?

A preocupação é complexa e envolve os âmbitos humanitário, político e mesmo econômico, devendo constituir pauta importante da viagem diplomática de Dilma ao Haiti, programada para o começo de fevereiro. As consequências da imigração irregular demonstram que muito ainda deve ser feito no Haiti para que os cidadãos não mais se sintam tentados pelas propostas de coiotes de ilegalmente entrar no Brasil, muitas vezes sob condições desumanas. E, é claro, muito ainda deve ser feito no Brasil para que possamos, efetivamente, afirmar que não, o Haiti não é aqui…


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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