O Grillo falante

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Na história do Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser menino de verdade passou por muitas aventuras acompanhado de um grilo falante, uma alegoria de sua consciência. O tal grilo ajudava-o a discernir o “bem” do “mal” enquanto o garoto aprendia com a vida. Coincidência ou não com nosso tema de hoje, o texto foi escrito por um italiano de Florença, Carlo Collodi, no final do século XIX. 

E é justamente sobre a Itália que vamos falar. 

Enquanto o livro de Collodi apresentou aos leitores boas alegorias educativas, a crise na Europa tem revelado e dado força a figuras peculiares quase alegóricas (clique aqui para mais sobre isso no blog). A maior ilustração desse cenário foram as eleições parlamentares do país na última semana de fevereiro, que parecem ter revelado um personagem muito parecido com a consciência de Pinóquio, Beppe Grillo. 

A semelhança vai muito além do nome. Como na história, se o boneco ignorasse sua consciência, situações complicadas poderiam ocorrer com ele. Da mesma forma, a política italiana não pode mais ignorar Grillo e seu partido, o Movimento 5 Estrelas, depois desse pleito. O ex-comediante conseguiu cativar os eleitores italianos com um discurso de grande mudança das instituições políticas tradicionais do país. Vociferando por rupturas na lei eleitoral, por reduções de salários de políticos, pelo fim de um reembolso de políticos pós-eleições, pela limitação de apenas dois mandatos por candidato e por investimentos maiores em programas sociais, conquistou grande parte a Itália. 

Olhando os números, o Movimento 5 Estrelas conquistou 108 cadeiras na Câmara (do total de 630), com 25,5% dos votos. Ficou apenas atrás da coalizão do sempre polêmico Berlusconi (29,18%, 124 cadeiras) e da de Pier Luigi Bersani (29,54%, 340 cadeiras). No Senado, teve um desempenho parecido; com 23,79% dos votos e 54 cadeiras, ainda atrás de Bersani (31,63%, 113 cadeiras) e de Berlusconi (30,71%, 116 cadeiras). 

Ora, analisando os números Grillo não parece ter tanta importância assim. Se as eleições dependesse de valores absolutos essa análise poderia estar certa. O problema é que, especificamente no Senado, cada região tem um peso diferente e nem sempre aquele com maior número de votos leva a maioria. E nessas eleições,  Berlusconi conseguiu alguns dos mais importantes nessa disputa.

Agora o país vive um impasse. Como nenhuma coalização foi capaz de obter a maioria no Senado e na Câmara, para que se escolha um primeiro-ministro é preciso uma aliança de partidos maior, para se obter um voto de confiança. Mas Grillo já mostrou ter outra característica em comum com o nosso personagem do Pinóquio, sabe falar. E bem. Negou-se a fazer alianças com as coalizações com Bersani a menos que ele concorde com suas exigências de mudanças

A temporada de negociações está aberta até as próximas semanas, quando os novos representantes tentarão selar alianças e se apresentarão à Câmara e ao Senado. O presidente do país não quer novas eleições; Bersani e Grillo negaram aliança com Berlusconi (nesse caso não acredito que haja o tipo de pragmatismo para uma parceria do estilo Lula-Haddad-Maluf…); Bersani não parece não estar muito otimista; e Grillo já até se ofereceu para tornar-se primeiro-ministro

Esse cenário inesperado é resultado da grande insatisfação pública e do espaço que se abre em tempos de crise. Como na história do Pinóquio, se os representantes da Itália não negociarem com Grillo, a nova consciência (para alguns a “desconsciência” ) italiana, o cenário futuro não é bom. Mesmo porque, quem poderá negar que em novas eleições o Movimento 5 Estrelas não ganhará mais representantes? Se a Itália quiser ser um “menino de verdade” é preciso negociar e ouvir nosso Grillo falante. Do contrário, o cenário não parece ser positivo.

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Categorias: Europa, Política e Política Externa


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